Outra Praia: Ideologia
e desencanto
NOTA: originalmente, postei
essa mensagem em meu Blog.
Se você quiser visitá-lo, basta clicar.
Dentro
do contexto daquele post em que eu falava sobre o filme "A
Praia", foi mencionada uma seita de fanáticos
a qual habitava a paradisíaca ilha. O tal grupo
suscita a questão: você seria capaz de se
engajar numa ideologia?
Certamente, a variação
das respostas seria imensa. No entanto, é possível,
em meio a tantas delas, encontrar algumas que definem muito
bem a linha de pensamento das pessoas que estudaram e conhecem
o mecanismo de funcionamento das sociedades. Elas costumam
dizer que, quando o ser humano se torna, de fato, conhecedor
da sociedade e de seus mecanismos, não raro acontece
dele ser acometido por uma certa desilusão, ou desencanto,
em relação tanto às ideologias quanto
a seus representantes.
Mas não devemos,
como há de acontecer num primeiro momento, supor
que as palavras "desilusão" ou "desencanto" são
de todas más. Afinal, por exemplo, deixar de estar
iludido por alguma coisa, ou estar "desiludido",
pode representar abertura de visão, aumento de capacidade
intelectual, de perspectiva ou, para simplificar, uma bem
significativa ampliação de consciência.
Se você estiver disposto a pagar este preço,
desiludir-se ou se desencantar com algo que anteriormente
julgava por demais importante em sua vida, saiba que uma
grande recompensa estará a sua espera.
Ao mesmo tempo, não
deixa de ser notável o fato (isso acontece com qualquer
um) de que o aumento de consciência implique num
certo, por assim dizer, distanciamento. Não que
a pessoa consciente de como funciona a sociedade queira,
algo proposital e premeditado, tornar-se um misantropo.
Mas, acontece dela ser evitada. Pelo menos inicialmente.
Neste último sentido, recordo-me das ótimas
palavras de Berger, quando, ao falar sobre o estudioso
da sociedade, afirmou o quanto este pode ser evitado ora
pela rigidez ideológica conservadora, ora pela utopia
revolucionária. Ele disse que "a compreensão
sociológica leva a um grau considerável de
desencanto. Um homem desencantado constitui um mau investimento,
tanto para movimentos conservadores como para revolucionários;
para os primeiros, porque esse homem não possui
a necessária dose de credulidade nas ideologias
do status quo, e para os segundos porque ele se mostrará cético
em relação aos mitos utópicos que
invariavelmente constituem o pão espiritual dos
revolucionários" (BERGER, Peter L. 1972. Perspectivas
Sociológicas. Petrópolis: Editora Vozes,
p 179).
De todo modo, penso que
o dado mais feliz de tudo isso é que, para quem
de fato procura, cada vez mais, estudar e conhecer o mundo
em que se vive, chega a hora em que fará se valer
o mito do eterno retorno. Assim, ele voltará para
o mundo, transmutado e transmudado, tazendo novo conhecimento
para as outras pessoas.
Fraternalmente:
Carlos Raposo
em 15/04/2005
Sexta-feira, dia de Vênus. <<<voltar
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