A liberdade machadiana
e o desdém dos finados
NOTA: originalmente, postei
essa mensagem em meu Blog.
Se você quiser visitá-lo, é clicar.
Estava
conversando com um jovem amigo, que se vangloriava sobre
a liberdade que ele possuía, visto pertencer a um
certo grupo "iniciático". Meu amigo ainda
se encontra naquela fase da doce-ilusão, na qual
qualquer nódoa institucional, por mais escandalosa
que seja, não é vista. Esse é o desconcertante
efeito que grupos sectários exercem, até mesmo
sobre as mentes mais esclarecidas. Nesse caso específico,
sei que não é nada que o tempo não
cure. Por isso, de certo que não vou questioná-lo.
Mas o papo sobre a liberdade
me remeteu a Machado de Assis, mais precisamente ao seu
maravilhoso "Memórias Póstumas de Brás
Cubas", livro este já citado aqui no Blog,
como um dos que prefiro e que há muito conquistou
eterno lugar em minha cabeceira. Para o momento, destaco
o pequeno trecho. Vejam que maravilha. Quem sabe, vocês
também poderão adotar o discurso de Assis,
quando pensarem em Liberdade:
Talvez espante ao
leitor a franqueza com que lhe exponho e realço
a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a
primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da
opinião, o contraste dos interesses, a luta
das cobiças obrigam a gente a calar os trapos
velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos,
a não estender ao mundo as revelações
que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando à força
de embaçar os outros, embaça-se um homem
a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma
sensação penosa, e a hipocrisia, que é um
vício hediondo. Mas, na morte, que diferença!
Que desabafo! Que LIBERDADE. Como a gente pode sacudir
fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se,
despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o
que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não
há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos,
nem estranhos; não há platéia.
O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial,
perde a virtude, logo que pisamos o território
da morte; não digo que ele não se estenda
para cá, e nos não examine e julgue;
mas a nós é que não se nos dá do
exame nem do julgamento. Senhores vivos, não
há nada tão incomensurável como
o desdém dos finados.
Tenho certeza que muitos
encontrarão seus pensamentos nestas breves e excepcionalmente
bem traçadas linhas.
De todo modo, penso que
seja algo útil meditar nessas palavras de Machado
de Assis pois, para todos nós que vivemos Iniciação & Liberdade
- as quais são (ou deveriam ser) compostas de pequenas
mortes e nascimentos - por vezes é comum nos esquecermos
de nossos mais puros anseios, para nos cobrirmos com a
capa da ilusão e da ostentação de
conhecimentos, graus, honrarias, instituições
e tudo mais.
Assim, se pensarmos que,
um dia, cedo ou tarde, tudo isso acaba, creio que muito
aprenderemos ainda em vida!
Fraternalmente:
Carlos Raposo
em 16/01/2005
Domingo, dia do Sol.
"A Vida é a minha
Religião, o Universo meu Altar"
<<<voltar
|