Ano Novo - Velhas Escatologias
E
mais um ano se passou. Não que eu seja contrário
a qualquer comemoração mas, convenhamos,
não custa (para alguns até que custa muito)
tentar entender como funciona a artificialidade que construiu
esta forma de medição do tempo. Para quem
quiser conhecer um pouco sobre como estas datas (inclusive
o final de ano) foram artificialmente concebidas, valerá a
leitura do seguinte livro:
Título: O Milenio
em Questao
Autor: Gould, Stephen Jay
Editora: Cia das Letras
ISBN: 8571649383
Sinopse da Livraria
Saraiva:
Passando ao largo
da onda de especulações futurológicas,
mas também da polêmica fácil contra
gurus de ocasião, Gould serve-se do tema da
virada do milênio como trampolim para uma investigação
sobre os sistemas e artifícios de contagem e
ordenação do tempo, raiz das polêmicas
milenaristas deste fim de século. O autor começa
por explorar as origens históricas da noção
de milênio e suas metamorfoses mais ou menos
apocalípticas ao longo da história religiosa
do Ocidente. Em seguida, mostra como a discussão
sobre o "verdadeiro" fim do milênio
- 2000 ou 2001? - tem origem meramente no deslize cronométrico
de um monge medieval. Por fim, aborda a disparidade
incontornável entre nossos calendários
e o andamento próprio aos três grandes
ciclos naturais (do Sol, da Terra e da Lua), a fim
de refletir sobre a nossa urgência de extrair
ordem de um mundo aparentemente caótico - urgência
tão humana e, feitas as contas, tão admirável.
Há um caso pitoresco
narrado neste livro, quando um determinado Papa, ao perceber
que havia um erro na forma como os dias eram contados,
'decretou', através de uma bula Papal, que fossem
suprimidos 10 dias. Assim, na história do ocidente,
por mais inusitado que possa parecer, simplesmente não
existem estes 10 dias.
Outro ponto em questão, abordado de forma magistral por este livro,
diz respeito as sempre existentes previsões escatológicas, aquelas
que apontam um final iminente do nosso mundo. Gould cita alguns exemplos destas
previsões, para depois concluir de modo comicamente triunfal, dizendo
que TODAS estas previsões, apesar de feitas por diversas pessoas e grupos
dos mais distintos, ao longo de nossa história, possuem um ponto em
comum: falharam no vaticínio. Todas elas erraram na previsão
do fim do mundo.
Atualmente, às custas da catástrofe humana recentemente ocorrida
em países banhados pelo Oceano Índico, vários místicos
têm visto neste acidente natural uma ‘evidência’ da
proximidade do fim do planeta. Tenho certeza este vaticínio apenas será mais
um item a engordar a já longa lista de Gould.
No mais, desejo um ótimo ano novo para todos.
Fraternalmente:
Carlos Raposo
em 01/01/2005
Sábado, dia de Saturno.
"A Vida é a minha Religião, o Universo meu Altar"
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