O Dervixe de Longa Barba
Há certos "iniciados" que
costumam fechar seus ouvidos e consciência à voz
daqueles que, mesmo estando no início da jornada,
têm algo a lhes comunicar. Não raro é vermos
tais iniciados se defenderem e fugirem da argumentação
inteligente dizendo algo próximo a "tenho 3
décadas de experiência". Esta bobagem
- relativamente e infelizmente comum no meio esotérico
- me faz lembrar uma historieta que escrevi em 1996. Repasso-a
novamente para cá. Ela está exatamente como
foi publicada, na Primavera daquele ano. Preferi editá-la
deste modo, sem revisão, inclusive mantendo os pequenos
erros de português que ela contém. Desculpem-me
qualquer aparente falta de cuidado, mas é que preferi
não alterá-la, em absolutamente NADA.
Assim, ela aqui vai, "in naturalibus", dedicada aos Irmãos
e Irmãs os quais, por descuido ou prepotência, de tanto pensar
que têm bastante experiência após décadas no caminho,
encontram-se afastados da verdadeira senda Iniciática, da senda do aprendizado
e, principalmente do bom senso e da moderação.
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Conta uma antiga lenda Sufi que dois dervixes, um já ancião e
o outro bem mais jovem, se encontraram por acaso em uma das várias estradas
que davam acesso a uma pequena cidade, próxima da região onde
eles moravam, na Turquia.
O mais velho dos dois
dervixes ostentava uma suntuosa e longuíssima barba,
cultivada ao longo de mais de trinta anos de aferrada,
insistente e teimosa peregrinação na via
do Conhecimento e da Busca de Deus. Perguntado pelo mais
novo sobre as razões de se manter uma barba tão
comprida e incômoda, respondeu irritado que ela representava
todas as suas provações sendo ela a única
fiel testemunha de seus feitos e convicções,
companheira das conquistas e símbolo de sua sabedoria.
"Ó ancião,
não me consta haver relação alguma
entre uma barba, por maior que seja, e a sabedoria!",
retorquiu surpreso o descuidado jovem dervixe.
"Você é novo
e nada sabe, é melhor calar-se e me acompanhar,
se quiser aprender alguma coisa!", esbravejou com
arrogância o ancião barbudo.
Nada restando que pudesse
ser dito, o jovem dervixe, então, resignou-se em
silêncio e decidiu, por fim, acompanhar o outro.
Logo encontraram um caudaloso
rio cruzando o atalho que os conduzia à pequena
cidade. Como não havia pontes nem qualquer alternativa
puseram-se a atravessá-lo a nado. Assim, o ancião
pôs-se rapidamente a nadar em direção
a outra margem, sendo seguido de perto pelo jovem dervixe
que o acompanhava. Porém, a força das águas
logo cansaria o mais velho que, sob o efeito do peso de
sua grande barba encharcada, começava a se afogar.
Imediatamente o jovem dervixe sacou uma navalha e ofereceu-a
ao ancião, para que esse se livrasse da enorme barba.
Foi quando o ancião, com insana veemência
e ira, a recusou, dizendo: "jamais, ó infiel!
Ela é a prova de minhas conquistas..."
E, desta forma, o velho
dervixe, sucumbindo ao peso de sua enorme barba, foi arrastado
pela forte correnteza e se afogou.
Quando chegou a outra
margem, o atordoado jovem dervixe encontrou um mullá calmamente
sentado. O tranqüilo Sábio, que, impassível,
assistira toda a cena, disse então: "Não
te aflijas, ó jovem aprendiz, mas sabe que a ti
foi conferida uma nobre honra!".
"Como? não
entendo o que queres proferir, ó mullá." Disse
ainda meio que sem fôlego o jovem dervixe.
"Regozija-te, ó tu que és novo na Senda da Iluminação!" -
continuou o Sábio - "pois viste o exemplo vivo de como A Busca de
Deus é tolamente trocada pelas conquistas do caminho."
"O homem, tal como
o bode, não deve se envergonhar de sua própria
barba; mas também não deve ter receio, nem
acanho, em tirá-la, pois se ela indica beleza, não é a
Beleza, assim como as conquistas do Caminho da Busca de
Deus, não são Deus."
"Da mesma forma,
as convicções não indicam sabedoria,
porquanto o saber está em acompanhar o ritmo dos
tempos mesmo que para isso tenhamos que nos desfazer do
excessivo peso das nossas próprias certezas, ainda
que estas acumulem mais de três décadas..."
"Quando aquele infeliz
dervixe recusou-se a cortar a própria barba, dando
mais importância às suas posses do que a vida,
que é a Busca de Deus, ele recusou a lição
das águas, a lição do passar dos tempos,
e pereceu ante a tola ilusão de sua própria
grandeza."
"Pois não
importa a posse, mas sim o sentido e a atitude do homem
perante as conquistas; e, da mesma forma pela qual muda
a posição das estrelas conforme a variação
das estações, nunca haverá doutrina
ou convicção pessoal que resista a variação
da vida em sua eterna ânsia de constante mudança!"
Fraternalmente:
Carlos Raposo
em 14/07/2004
Quarta-feira, dia de Mercúrio.
"A Vida é a minha Religião, o Universo meu Altar"
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