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A Caridade e os Limites da Prudência

Desventurado o pobre em espírito,
porque debaixo da terra será o que hoje é na terra.

(Jorge Luís Borges)

Uma das instruções dadas ao Aprendiz Maçom nos fala a respeito das dimensões do Templo, ou da Loja: o Comprimento vai de Oriente ao Ocidente; sua largura se estende do Norte ao Sul; a profundidade indo de sua superfície ao Centro da Terra, enquanto que sua altura parte da Terra, alcançando o Céu. É dito que tão vasta extensão, entre outros preciosos significados, simboliza a Caridade, a qual o Maçom deve possuir como uma de suas maiores Virtudes, sem quaisquer limites para exercê-la, senão aqueles ditados pela prudência.

Essa aparente contradição é um tema deveras interessante de se ter em mente. Muito podemos aprender sobre a questão, observando o que é vulgarmente entendido por caridade, como ela é exercida e como é usada, tanto para o Bem e a Glória do ser humano, mas também estando atento para as questões que podem levá-lo a sua ruína, às vezes.

Mas como medir a Caridade, tendo, como juiz, a prudência?

Decerto que para termos uma resposta precisa com relação a esse tema necessário é que saibamos a definição de tão complexa expressão, a Caridade. Um dos entendimentos possíveis para a palavra "Caridade" é extraído do conceito teológico que diz "amor a Deus e ao próximo". Uma das máximas latinas cristãs mais utilizadas, tanto pelo clero católico quando por Organizações de cunho Iniciático nos diz que initium sapientiae amor domini ou, "no amor de Deus está o início da sabedoria". Vemos, assim, de forma intrínseca, relacionados os termos Caridade (entendido como "amor a Deus") e Sabedoria (também relacionada ao "amor de Deus").

Na mesma instrução dada ao Aprendiz Maçom vemos três grandes Colunas, cujos nomes são Força, Beleza e, novamente, a Sabedoria. Mais uma vez, aqui encontramos citada essa grande virtude, entendida como Sabedoria.

A compreensão do termo Caridade, contudo, em uma primeira análise, parece bem mais simples do que sugere o seu entendimento dito teológico. Ela está diretamente associada com o comum conceito religioso de ajuda ao próximo. Nossa sociedade, erguida sobre rígidas bases religiosas, por conseqüência direta, deveria ter na Caridade, um de seus mais fortes alicerces. Mas, isso acontece?

Como todos sabem, uma das maiores religiões que povoam o nosso globo - bem como uma série de seitas menores que dela se originaram - tem, na suposta ação de "auxílio aos mais necessitados" um dos mais fortes álibis para a sua própria existência. Sendo assim, praticamente todo o seu discurso está direcionado a ressaltar a necessidade premente que as almas menos abastadas têm de serem auxiliadas.

Assim, de modo constante, vemos vários movimentos sendo feitos, no sentido de ajudar ao próximo. Milhões de instrumentos são movidos, muito dinheiro é arrecadado, campanhas e mais campanhas são feitas se utilizando dos mais variados meios de comunicação de massa, tudo visando o auxílio ao próximo. Quando imaginamos os gigantescos recursos que são levantados para a erradicação da pobreza humana, imediatamente concluímos que a sociedade em que vivemos tem, de fato, ânsia por alcançar esse objetivo: acabar com a miséria a qual estão submetidos tantos de nossos "próximos".

No entanto, é claro, basta uma rápida nova saída à rua para notarmos a crescente real necessidade de tantos homens e mulheres têm de serem auxiliados, urgentemente, como se nada nunca houvesse sido feito para ajudá-los. Daí, perguntamos: onde estão os recursos, onde está a ajuda?

E, novamente, nos deparamos com mais e mais movimentos, onde mais e mais recursos são arrecadados para a eliminação da pobreza, mal que assola a humanidade.

Onde existe a prudência nisso tudo? Onde devemos agir, como ser verdadeiramente Caridoso? As respostas são muito particulares. Certamente, porém, cada um de nós tem um papel a ser cumprido, seja pelo destino, seja por nossa própria vontade.

Ora num simples ato de oferecer um prato de comida, ora a frente de algo bem maior, é importante que todos nós façamos a nossa parte.

Será que é difícil imaginar um mundo onde todos possam desfrutar das condições ideais de vida? Talvez sim.

A Caridade, como já dito anteriormente, é a razão da existência de certas religiões. Pessoas necessitadas, que precisam de Caridade, então, passam a ser o real sustentáculo dessas mesmas instituições. Talvez aí resida a resposta para o fato de sempre haver pobreza. Ela é, simplesmente, necessária para se manter o poder religioso de muitas instituições. Não seria difícil concluir que, caso não houvesse pessoas carentes de auxílio, a necessidade de Caridade seria eliminada. Eliminado a principal razão para a existência de certos movimentos religiosos, estes deixariam de existir. Não é difícil perceber que muitos não suportariam essa idéia.

E, embora essa condição ideal de vida, onde todos pudessem de fato existir em franca felicidade encha os olhos de muitos de nós com o inocente brilho de uma felicidade utópica, certamente, devido tão somente aos elaborados caprichos de nossa sociedade, esse é um status ainda muito longe de ser atingido.

A prudência, talvez, esteja em procurar saber exatamente onde podemos agir e com que propriedade atuar. Também prudente é aquele que sabe que, escondidos pelos véus de palavras virtuosas, muitos vícios podem estar encobertos, fazendo com que supostas caridades, não passem de armadilhas que visam manter seres humanos fragilizados, sem capacidade alguma de ação ou reação, e eternamente dependentes das fortunas, cujos donos continuam sendo sempre os mesmos...

Fraternalmente:

Carlos Raposo
em 07/07/2004
Quarta-feira, dia de Mercúrio.
"A Vida é a minha Religião, o Universo meu Altar"

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