Que a Beleza seja sempre
a Beleza!
Os
símbolos com os quais tomamos contato durante a
jornada do Aprendiz nos mostram nossas potencialidades
e também predizem o que poderemos vir a ser. E eles,
perfazendo uma só voz, como se fossem um bem afinado
coral, nos afirmam que o estudo e a prática das
Ciências Sagradas terá a capacidade de nos
tornar seres humanos melhores, mas dignos, retos, espiritualizados,
etc.
Tendo esse pressuposto
como base e como - por analogia - constatamos que o trabalho
a ser realizado é interno,
ocorreu-me de um breve pensamento a respeito. Ele vem nos
dizer que a "melhoria" que o estudo das Ciências
ditas Sagradas promove naquele que envereda pelos caminhos
do mistério, pelos caminhos da Iniciação,
de fato acontece. Mas ele também diz que isso ocorre
apenas em certos casos e que o termo "aprimoramento",
seria bem mais apropriado de se usar, visto abranger a
quase totalidade dos casos.
É comum notarmos,
desde que o Aprendiz se adentra pela senda iniciática,
certas pretensas "boas" modificações
ocorrerem, principalmente, em seu comportamento social,
perante seus amigos e familiares. Consideramos que tal "melhoria",
antes de ser apenas o efeito de uma doutrina externa qualquer,
apenas é o resultado do "aprimoramento" da
substância da qual é composto o Iniciado,
em essência. Creio ser esse um tema interessante,
pois é comum verificarmos - como estará apresentado
ao longo dessa breve exposição - exatamente
isso, especialmente com relação a alguns
estudantes. Além disso, creio que esse pensamento
valerá também como um pequeno aviso, pois
todos nós, de uma forma ou de outra, podemos estar
sujeitos a descobrir algo desagradável em nossa
própria natureza, expressa como nossa vontade.
Em
principio, eu também concordo com isso, que a
natureza e a beleza da instrução oferecida
pelas Ciências Sagradas, e pelas Ordens que a representam,
leva o Aprendiz a uma suposta melhoria. Não é simplesmente
a toa que há muito é dito que o estudo e
a vivência do sagrado têm essa propriedade
- conhecida por certos Iniciados como a obra de desbaste
da pedra bruta - de transformar a matéria em estado
original (o Aprendiz) em algo próximo ao perfeito,
ou até mesmo perfeito, no caso do, digamos, estado "Além
do Adeptado".
Essa capacidade de transformar
a matéria
original (ou bruta) em algo (talvez) divino, tem, segundo
a maioria dos Sistemas de Iniciação, direta
relação
em quão profundo está o Iniciado envolvido
com os termos de seu Sistema de Aprendizado, ou de Consecução
Mágica.
Assim, uma natureza bruta
qualquer (um estado inferior) poderia ser burilada e trabalhada,
até ser
transformada em algo precioso. O escritor Victor Hugo,
magistralmente, sintetizou essa idéia na frase: "Deus
criou a água, o homem fez o vinho".
Mas, generalidade
gera obscuridade. Existe um porém
nessa historia, que gostaria de apresentar rapidamente:
há uma bem conhecida assertiva alquímica,
mas parecida com uma injunção, que diz "a
nobreza de um metal apenas pode ser obtida através
da nobreza deste próprio metal", ou, como ficou
externamente conhecida pelo vulgo, "só se produz
ouro com ouro". Isso é interessante, pois a
natureza (caráter, talvez melhor dizendo) dos humanos é múltipla
e diversa, sendo que o aprimoramento das mesmas apenas
vem a desvelar a verdade da qual ela é composta.
O estudo dos Temas Arcanos, tendo, como já dito,
a propriedade de aperfeiçoar o Estudante ou Aprendiz,
apenas agirá naquilo o qual é composto o
próprio Estudante. Desta feita, enquanto que no
Digno, o precioso saltará aos olhos, no Indigno,
o vil será exaltado. Enquanto que o Belo, mas belo
parecerá, o Feio, ainda mais feio se tornará.
Até na Bíblia há uma referência
que pode ser entendida desta forma, a qual diz "àquele
que tem, ainda mais lhe será dado, quanto ao que
pouco tem, até mesmo esse pouco lhe será tirado".
Ainda
sobre o tema, também foi dito por certo Iniciado
(Aleister Crowley), de modo cru e esplêndido, que
aquele "que é correto deverá permanecer
correto; aquele que é imundo deverá permanecer
imundo". Enfim, a despeito de todos os nossos esforços
e do Conhecimento do Sagrado que porventura conheçamos,
ao final só poderemos aperfeiçoar e nos tornar
aquilo que, em essência, nos já éramos,
ou possuíamos.
Sobre isso, para quem
quiser meditar, deixo aqui algumas sólidas palavras de Giordano
Bruno, as quais me servem constantemente de inspiração
e alerta. Ele, de forma bem mais letrada do que eu, expôs
o tema com sua peculiar maestria, há mais de quatrocentos
anos atrás:
Louvemos, então,
a Antigüidade quando
tanto valiam os filósofos [ou Iniciados] que
de seu seio é que provinham os legisladores,
os conselheiros, os reis; e tão dignos eram
esses conselheiros e reis que desta função
passavam a sacerdotes. Em nossos dias, de tal modo é feita
a maioria dos sacerdotes que acabam sendo causa de
escárnio e,
por eles, são escarnecidas as leis divinas;
assim, também sobre quase todos os que se chamam
filósofos
recai o desprezo e, através deles, as ciências
são vilipendiadas. E, além destes, existe
a multidão de biltres, que, como urtigas, com
hostis elucubrações, costuma oprimir
a virtude e a verdade, que aos raros se revelam.
"Serei eterno inimigo de quem afirmar que aqueles
[os biltres] fazem parte e [são] membros
de nossa pátria, a qual conta somente com gente
nobre, educada, regrada, discreta, humana, sensata
como qualquer outra. Aqueles aqui estão como
na sentina do navio se encontra a Imundice, a borra,
a sujeira, a podridão, e de
modo algum poderiam considerar-se parte do reino ou
da cidade. Por eles não devemos nos ofender,
o que seria envilecer-nos. Não excluo de seu
meio grande número de padres e doutores, alguns
dos quais, mediante o doutoramento transformaram-se
em verdadeiros gentis-homens; a maioria, entretanto,
que inicialmente não ousava
revelar sua natureza grosseira, com seu título
de letrado ou de sacerdote, passa ousadamente a manifestá-la.
Não espanta, portanto, verem-se muitíssimos
que, com doutorado e presbiterado, mais cheiram a récua,
rebanho e curral do que os próprios estrumeiros,
pastores e boieiros.
Pois é, e isso
de vez em quando ocorre...
Assim, se, por um lado,
tanto a beleza ("que a Beleza
corresponda sempre a Beleza" - disse aquele mesmo
certo Iniciado), quanto a integridade de caráter
podem ser aprimorados, se tornando ainda mais brilhantes;
do mesmo modo, desta feita por outro lado, o mesmo acontecerá com
a arrogância e a prepotência natural (original)
de alguns Estudantes.
E as "coisas" continuam
como sempre: cada um só pode oferecer aquilo que
possui. É algo
como a cor do sangue. Assim, o grosseiro, independente
de sua erudição, usará palavras
grosseiras; e o suave, palavras suaves. O feliz se
expressa alegremente, enquanto que o triste não
consegue esconder o seu pesar. O sábio segue
sendo sábio,
a todos levando sua grandiosa luz; enquanto que o tolo,
sendo fiel escudeiro da própria tolice, vendo
em tudo e em todos, falsidade, falta de representação
e pseudo-sapiência, segue se afundando na imundice
da qual é composto.
Mas o exemplo dado pelos
tolos é apenas uma pequena
parte da historia, e não é a parte mais
bela, com certeza. E embora seja interessante saber
da existência desse mau exemplo, não valerá nos
determos nele.
Sim, pois os verdadeiros
sábios
sempre estarão
por aí, transmitindo seu valor, de modo silencioso
e constante, fazendo crescer o trabalho ao qual estão
dedicados, sem os comuns escândalos que são
tão próprios dos "irmãos
menores".
Fraternalmente: Carlos Raposo
em 02/06/2004
Quarta-feira, dia de Mercúrio.
"A Vida é a minha Religião, o Universo
meu Altar"
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