Thelema:
Uma Religião da Nova Era
por Carlos Raposo
raposo@artemagicka.com
Nota Editorial:
Este Artigo - que aqui está reproduzido em sua
versão intgegral - foi originalmente publicado
na Revista Sexto Sentido nº 50,
de Abril de 2004, da Mythos Editora. Clique na
imagem da Revista para ir para a página
da Revista Sexto Sentido, no Site da Mythos Editora. |
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Não existe Culpa, não existe Graça;
Esta é a Lei, o que quiser, faça!
(Aleister Crowley)
Em
escala mundial, estamos vivendo um momento de significativa
importância para muitos dos estudantes das assim
chamadas Ciências Ocultas. No período
entre os dias 21 de março e 10 de abril de 2004,
a partir das festividades do Equinócio de Primavera
(ou Outono, no Hemisfério Sul) milhares de fiéis
em todo mundo celebrarão o centenário
de inauguração de sua religião,
vinda ao mundo com a promessa de ser a aclamada religião
da Nova Era: é o centenário da Lei de
Thelema. Nos dias 8, 9 e 10 de abril de 1904, Aleister
Crowley, recebia o Liber Al vel Legis (comumente chamado
de Livro da Lei), documento mestre da então
recém-nascida Lei de Thelema.
O Livro da
Lei é a pedra fundamental da religião
thelêmica, ou a religião do Novo Éon
de Hórus, como os thelemitas preferem chamar
a Era de Aquário. Aleister Crowley, então,
como Profeta do Novo Éon, definitivamente marca
sua presença no cenário ocultista mundial.
Quem foi Aleister
Crowley
Um dos exemplos mais desconcertantes da história
do ocultismo de todos os tempos, Aleister Crowley
(Edward Alexander Crowley, 1875-1947), bem caberia
como personagem principal de histórias místicas
do mais romântico estofo. Atualmente, a obra
e a vida daquele que por muitos é considerado
o maior mago do vigésimo século da
era cristã, vem despertando cada vez mais
a atenção dos estudantes da filosofia
hermética.
Mago, poeta e erudito, visionário, bissexual
e bufão, alpinista excepcional e enxadrista
notável, a própria Grande Besta do
Apocalipse, como ele próprio se denominava,
a partir de várias tradições
com as quais esteve em contato, sejam ocidentais
ou orientais, reformulando-as de acordo com o filtro
de sua obsessiva e frenética personalidade,
Crowley legou à humanidade uma vastíssima
obra, cuja principal virtude é – de
acordo com as palavras de seus seguidores – libertar
o ser humano da escravidão imposta pelo secular
dogmatismo das religiões de massa.
Desde bem cedo, o jovem Crowley, obrigado por seus
pais, fanáticos membros de uma radical seita
protestante vitoriana, viu-se às voltas com
um bem comum modo de vida inglês, cuja monótona
rotina oscilava entre os cultos diários da
Irmandade e o intenso estudo da Bíblia cristã.
Segundo seus biógrafos, esta seria uma das
principais razões de sua alucinada rebeldia
que o levaria, mais tarde, a romper com todos os
modos e costumes da tradicional aristocracia inglesa
do final do século XIX.
Em Cambridge se instruiu com raro destaque em todas
as disciplinas. Nesta época, Crowley, leitor
voraz e compulsivo, assimilou tudo de importante
que havia das literaturas inglesa e francesa, além
de diversas outras obras em Latim e Grego clássicos,
inclusive filosofia e alquimia; se dedicou a canoagem,
ciclismo, xadrez, montanhismo e alpinismo, atividade
esta em que ganhou notoriedade e que exerceu por
boa parte de sua vida. Sua carreira de alpinista
chegou ao ápice entre os anos de 1902 e 1905,
quando participou das primeiras tentativas de escalar
o Chogo Ri (também conhecido como K2) e o
Kanchenchunga, duas das maiores montanhas do mundo,
situadas na Cordilheira do Himalaia.
Por volta de 1896, Crowley inicia a leitura de alguns
livros sobre magia e misticismo. Algo começava
a tomar forma dentro de seu irrequieto ser; porém,
foi a leitura de “Nuvem sobre o Santuário”,
do místico Karl von Eckhartshausen, obra lhe
recomendada pelo famoso ocultista Arthur Edward Waite,
que fez com que Crowley decidisse abandonar os estudos
em Cambridge, bem antes de sua graduação,
para dedicar a vida ao estudo do Ocultismo e da Magia.
Assim, ele se determina a empenhar-se com afinco
no sentido de encontrar os Mestres Secretos e a Grande
Fraternidade Branca, mencionados no livro de Eckhartshausen.
Começa aqui a carreira mágica de Aleister
Crowley.
Através de dois amigos, Julian Baker e George
Cecil Jones, Crowley é apresentado a Samuel
Liddell "MacGregor" Mathers, um dos lideres
da Ordem Hermética da Aurora Dourada (“The
Hermetic Order of the Golden Dawn”, a G.'.D.'.),
uma das mais influentes Ordens iniciáticas
do final do século XIX. A G.'.D.'.,
fundada pelo próprio Mathers, junto com os
maçons William Wynn Westcott e William Robert
Woodman, em 1887, proporcionaria a Crowley sua primeira
Iniciação e o contato com os primeiros
mistérios mágicos, os quais tanto ansiava.
Crowley é iniciado por Mathers ao Grau de
Neófito, primeiro grau da G.'.D.'.,
tomando como mote mágico o nome de Perdurabo
("eu perdurarei até o fim"). Sua
inteligência e aptidão em assimilar
novos conhecimentos, além de sua dedicação
ao estudo e a prática do ocultismo, o conduziram
rapidamente aos Graus subseqüentes da G.'.D.'..
Durante este período, além do intenso
estudo do ocultismo, o constante uso de drogas e
uma obsessão praticamente incontrolável
por sexo, consistiam suas atividades principais.
Crowley viajou pelas Américas do Norte e Central,
toda a Europa, África e Oriente Médio.
Dotado de uma fantástica capacidade de mimetismo,
assimilava a cultura local passando como se fosse
um nativo das inóspitas regiões onde
estivesse, seja Índia ou Himalaia. No Oriente
Médio, encontrou-se e instruiu-se com Mestres
de Yoga e Tantra.
O ano de 1904 revela a Crowley o mistério
que o acompanhou até seu último momento:
a Lei de Thelema. Com sua esposa Rose Kelly, Crowley
viaja pelo Egito. Segundo seu relato, quando de sua
estadia no Cairo, após uma série de
Rituais e Invocações ao Deus Thoth,
iniciadas durante o Equinócio de Primavera
(Hemisfério Norte) daquele ano, um ser preter-humano,
identificando-se como Aiwass lhe dita, nos dias 8,
9 e 10 de abril, o Liber Al vel Legis, o Livro da
Lei. Nascia a religião de thelema.
Liber Al vel Legis, de acordo com os thelemitas,
proclama o fim da Era, ou Éon, num evento
de passagem denominado por eles como o “Equinócio
dos Deuses”. O velho Éon, ainda segundo
os thelemitas, era marcado pelo sofrimento, pela
necessidade de intermediação entre
Deus e o homem. Em seu lugar, começava a época
do deus de alegria, onde o homem teria a liberdade
de realização de sua própria
vontade. A epígrafe "Faze o que queres
há de ser o todo da Lei", contida em
Liber Al e utilizada nos escritos de natureza thelêmica,
sintetiza a própria regra de conduta a ser
tomada como tônica do Éon então
nascido.
Crowley por sua vez, a essa altura já tendo
se afastado da G.'.D.'., no sentido de
divulgar a Lei de Thelema, funda em 1907 a sua própria
organização iniciática: a Argenteum
Astrum, A.'.A.'., a Ordem da Estrela de
Prata, que bem mais tarde seria instalada na Abadia
de Thelema, na Sicília.
Em seu quadragésimo aniversário, Aleister
Crowley profundamente inspirado pelo mito bíblico
assume para si o Mote de TO MEGA THERION (“A
Grande Besta”, em grego, cujo valor numérico é 666)
para o avançado Grau de Magus da sua A.'.A.'.,
nome e lema mágico-oculto que o acompanhou
pelo resto de sua vida. Daí ele ter sido também
conhecido como Mestre Therion.
Um pouco mais tarde, Crowley toma a liderança
de uma outra Ordem, chamada O.T.O. - Ordo Templi
Orientis. Sob o novo Mote de Baphomet XIº, reestrutura
esta Ordem, de modo que ela sirva aos seus propósitos,
recheando-a com os preceitos thelêmicos em
seus Rituais de Iniciação, fazendo
desta uma nova Ordem religiosa, um novo instrumento
de divulgação de sua religião
thelêmica. Crowley lidera a O.T.O. até sua
morte, ocorrida em 1º de dezembro 1947.
Ao longo de toda sua vida, Crowley seguiu orientando
e ensinando seus discípulos, ainda que estivesse
comumente envolvido em escândalos nos quais
os principais ingredientes costumavam ser duelos
mágicos, drogas, orgias e até mesmo
a simulação de seu suicídio.
Ora ignorado ora perseguido, às vezes considerado
pernicioso à moral e aos bons costumes, Crowley,
absolutamente convencido de sua missão como
o Profeta do Novo Éon, se dizia ‘além
da Sabedoria e da Tolice’, e sem considerar
o pouco caso que por vezes lhe faziam, continuava
proclamando a todos: "Faze o que queres há de
ser o todo da Lei".
A Religião Thelêmica
Thelema é uma palavra grega que significa
vontade. A Religião thelêmica pode ser
entendida como aquela que fará com que seu
seguidor identifique, conheça e, então,
passe a seguir a sua própria vontade pessoal.
Esta vontade pessoal, de acordo com Crowley, deve
estar obrigatoriamente em harmonia com a Vontade
que tudo rege. Somente assim, estas duas vontades
passam a ser uma única vontade, chamada de
Vontade Verdadeira, a orientar a vida do Iniciado.
Algumas máximas, extraídas de Liber
Al, servem como guias para os fieis da religião
criada por Crowley. Entre elas, as mais conhecidas
são “Faze o que queres há de
ser o todo da Lei”, “Amor é a
lei, amor sob vontade”, "a palavra de
pecado é restrição" e a
bem poeticamente mística “todo homem
e toda mulher é uma estrela”.
Thelema (ou Vontade), para ter o devido equilíbrio
em força e beleza, deve ser usada em igual
proporção a Agape, palavra grega para
Amor. Daí a compreensão do axioma “Amor é a
lei, amor sob vontade” ser de vital importância
para o exercício da religião thelêmica.
A demonstração deste mistério
pode ser apresentada através do uso da gematria,
técnica em que valores são atribuídos às
palavras. Deste modo, chega-se a uma fórmula
bem simples, uma expressão matemática
de busca de identidade, ou da Unidade, o numero 1.
A palavra "Vontade", Thelema, segundo a
gematria normalmente adotada, vale 93. A palavra "Amor",
Agape, também valerá 93. Assim, dizem
os thelemitas, "amor sob vontade" pode
ser representado por "93/93" e essa fração é igual
a 1, a Unidade. O ser humano dotado de iguais medidas
de Amor e de Vontade, teria assim a capacidade de
realização espiritual máxima,
sendo, ele mesmo, a expressão viva da Unidade
primordial.
Agape também é compreensão e
entendimento. Desprezar esta chave é causar
desequilíbrio entre os pratos da balança.
Neste caso, teríamos vontade fraca e entendimento
nulo. A resultante desta insidiosa ação
não poderia ser outra. Quando vontade e entendimento,
princípios básicos que constituem o
homem, operam sem harmonia, o espírito cai
enfermo. O estudo e a prática da Lei de Thelema,
ressaltam os thelemitas, intentam fazer com que o
conjunto Vontade e Entendimento, funcione devidamente,
levando o Adepto a sua realização plena,
também nomeada por eles de a Grande Obra.
Segundo Crowley e sua religião, "a palavra
de pecado é restrição".
Crowley é bem claro sobre o que significa "Restrição".
Ele diz: "qualquer coisa que prenda a vontade,
que a impeça, ou que a desvie, é Pecado".
Sendo, pois, a restrição da vontade
pessoal o principal obstáculo ao desenvolvimento
individual, o esforço do fiel da religião
thelêmica, o thelemita, deve ser orientado
no sentido de identificar dois pontos básicos:
a Vontade Verdadeira e os elementos que impedem a
sua manifestação. Eliminando o segundo,
aquele faria o homem brilhar como estrela: "Todo
homem e toda mulher é uma estrela", arremata
Crowley.
Thelema traz ainda um alentado apelo liberal, que
a mente menos perspicaz, em espécie aquela
presa ou afetada por dogmas religiosos relacionados
a sexualidade, pode entender como promíscuo
ou libertino. Ainda sobre pecado ser identificado
com restrição, por exemplo, Crowley
completa: "o instinto sexual é uma das
mais profundamente enraizadas expressões da
Vontade; e não deve ser restringido".
Ele é ainda mais enfático e claro quando
diz que “o homem tem o direito de amar como
quiser: tomai sua fartura de amor como quiser, quando,
como, onde e com quem quiser”. Quando recriminado
em relação a suposta imoralidade de
seus atos, ele simplesmente diz que “quando
você bebe ou dança e desfruta de alegrias,
você não está sendo ‘imoral’ nem ‘prejudicando
sua alma imortal’, você está sendo
inteiramente de acordo com os preceitos de nossa
Religião”.
Muito além de toda especulação
feita a respeito da doutrina religiosa de Aleister
Crowley, bem como a respeito de seu incomum modo
de vida, o universo thelêmico ainda guardará uma
infinita gama de significados, todos esperando para
serem desvendados. Ao centro de todos estes mistérios
sempre estará o ser humano. A prática
thelêmica visa mostrar ao seu Adepto exatamente
isto, uma realidade iniciática, por muitos
considerada por demais dolorosa: o verdadeiro Iniciado
está só, entregue a si mesmo e a mais
ninguém, sendo ele o único responsável
por seu destino.
Uma das formas mais belas e significativas encontradas
por Crowley para demonstrar este mistério
está presente em sua dramatização
ritualística. Descrevendo-a, após a
entrada do Postulante no templo, o Oficiante principal
que conduz o rito lhe pergunta em tom solene: “em
todos os casos de dificuldade e perigo, em quem tu
depositas a tua confiança?”. Por sua
livre iniciativa e vontade, o Candidato deverá responder
confiante “em mim mesmo”. Deste modo,
o Oficiante dará continuidade ao Rito. Entretanto,
qualquer outra resposta vacilante indicará que
aquele Postulante ainda não está preparado
para a comunicação dos mistérios
thelêmicos ali celebrados, devendo ser o candidato
imediatamente retirado do templo.
A breve descrição acima, que compõe
o Ritual de Iniciação ao Grau I da
Ordem do Templo do Oriente, resume de modo magistral
o espírito de liberdade desta nova religião,
a religião thelêmica, genericamente
conhecida como a Lei de Thelema. É a esta
busca por irrestrita Liberdade, munidos pela Tradição,
que os Adeptos e Seguidores da Estrela e da Serpente,
os Estudantes de Thelema, dedicam sua Obra.
Raízes da Religião
de Thelema
Talvez devido a seu forte apelo libertário,
muitos dos entusiásticos seguidores da Lei
de Thelema sejam levados a tomar sua religião
como totalmente revolucionária e completamente
nova. No entanto, a Religião thelêmica,
se por um lado é o resultado da busca individual
de um Iniciado, se ela é a demanda por irrestrita
liberdade, por outro, ela possui como elementos fundamentais,
alguns princípios sacados livremente por Crowley
das mais variadas fontes, com as quais ele esteve
em contato.
Apenas citando alguns nomes, por exemplo, encontramos
em Santo Agostinho (que proclamou, ainda na aurora
do cristianismo, “ama e faze o que quiseres”),
uma de suas principais referências. Em François
Rabelais (especificamente em Gargantua e Pantagruel),
Crowley buscou o conceito de sua famosa “Abadia
de Thelema”. Nos “Provérbios do
Inferno” do igualmente desconcertante William
Blake, que dizia “o caminho do excesso leva
ao palácio da sabedoria”, Crowley encontraria
inspiração para recomendar que seus
discípulos “excedessem”. Do filósofo
Nietzsche, considerado por Crowley uma espécie
de “avatar de mercúrio”, seria
absorvida a forte idéia anticristã da
completa negação de Deus. “Não
há Deus”, diz enfaticamente o filósofo
em seu Anticristo, ao que Crowley completa, inspirado: “não
há deus senão o homem”.
Por outro lado, há quem
afirme taxativamente que o enfático brado de
Crowley “não há deus senão
o homem”, venha diretamente do Islã e
seu fervoroso clamor “não há deus
senão Alá”. Certamente, não
existe como evitar esta comparação, principalmente
se levarmos em consideração a admiração
pelo Islamismo, nutrida por parte de muitos seguidores
da religião thelêmica. Sobre a crença
fundada por Maomé, Crowley vai além,
afirmando que "os dogmas do Islã, retamente
interpretados, não estão longe do nosso
caminho de Vida e Luz e Amor e Liberdade [a Religião
Thelêmica]. Isso se aplica especialmente ao dogma
secreto. O credo externo é mera tolice apropriada à inteligência
dos povos entre os quais foi promulgado; mas assim
mesmo, o Islã é magnífico na prática.
Seu código é o de um homem com coragem
e honra e respeito próprio".
Algumas Ordens
thelêmicas de natureza cristã,
por sua vez, como a Ordo Templi Orientis (O.T.O.),
também nutrem uma grande admiração
pelo Islamismo. A O.T.O., por exemplo, faz franco
uso da imagem de Saladino (herói do Islã,
quando das Cruzadas), ao longo de alguns de seus
Rituais, como ícone de sabedoria e modelo
de vida de um verdadeiro iniciado, na forma de Sacerdote-Guerreiro.
Apesar
de, em muitos aspectos, a religião
thelêmica não ser simpática ao
cristianismo (“eu bico os olhos de Jesus enquanto
ele está dependurado na cruz”, diz explicitamente
o Livro da Lei dos thelemitas), paradoxalmente, foi
exatamente a Bíblia cristã uma das
principais fontes para Crowley montar sua religião.
Por exemplo, o conceito de vontade, de acordo com
a religião thelêmica, está muito
próximo da máxima cristã “seja
feita a tua vontade” (Mateus, 6:10). Apenas
citando mais um exemplo, a exortação
do Livro da Lei - “Existe
a pomba e existe a serpente. Escolhas bem" -
possui clara inspiração bíblica,
quando esta compara pomba e serpente, através
da alegada palavra de Jesus, ao recomendar que seus
seguidores devessem ser “prudentes como as
serpentes e simples como as pombas” (Mateus
10:16).
Outros conceitos fundamentais para o entendimento
da religião thelêmica estão presentes
nas fantásticas imagens da Besta 666 e de
sua consorte, a voluptuosa deusa Babalon. “A
Grande Besta” (ver em Apocalipse, 13:18) foi
talvez o principal nome mágico de Crowley
e a descrição de sua divindade Babalon,
versão corrigida de Crowley para a palavra
inglesa Babylon, a Grande Prostituta que cavalga
a Besta de sete cabeças, foi inteiramente
sacada da Bíblia (ver Apocalipse, 17:3-5).
Outro par de deuses, chave dentro do panteão
de divindades cultuadas pelos thelemitas, é o
casal estelar Hadit e Nuit, representações
divinizadas do ponto e do círculo. Hadit,
de acordo com os Livros Santos thelêmicos, é um
deus que se apresenta dizendo: "Eu estou só.
Não há deus onde eu sou". A origem
desta breve fala está intrinsecamente relacionada
a Isaías (45:5) "Sou eu que sou o Senhor,
não existe outro senão eu”. Nuit,
por sua vez, que aparece em Liber Al como a Rainha
do Céu a quem se deve queimar incenso segue
o modelo da divindade estelar cultuada assim como
a inspirada descrição bíblica
apresentada em Jeremias (44:15-19)
Não devemos supor, entretanto, que os textos
bíblicos que tão fortemente marcaram
a vida de Aleister Crowley, formem a única
fonte de seu culto thelêmico. Há também
em seu sistema de realização espiritual,
muito de yoga, de magia e de misticismo. Do oriente,
Crowley sorveu dos escritos de Vivekanada e Patanjali;
enquanto que, do ocidente, todo o sistema de magia,
assim como lhe ensinado pela G.'.D.'. original,
foi aproveitado para que ele montasse o seu próprio
sistema iniciático, e também sua magick.
Em relação ao misticismo, muito foi
revivido por Crowley a partir de ensinamentos que
remontam a época das seitas gnósticas,
em espécie aquelas relacionadas a Basilides
e Valentino, os quais foram considerados pelo Profeta
Crowley como autênticos Santos de sua Igreja
Católica Gnóstica. Tão marcante é a
influência destes na mente de Crowley que um
dos principais ícones da crença thelêmica,
Baphomet, foi concebido por ele a partir da suposta
compreensão mística que lhe davam estes
gnósticos (ver meu artigo Os
Mistérios
de Baphomet, em Sexto Sentido nº 45).
O fértil panteão de deuses egípcios
foi outras das fontes de onde Crowley mais buscou
estereótipos que comporiam os seus próprios
deuses. Além da já citada Nuit, uma
variação da deusa Nu, Crowley aproveitaria
conceitos como de Osíris, Hórus, ISIS
(poeticamente entendida por Crowley como acróstico
de “Infinite Space, and the Infinite Stars”)
e tantos outros deuses mais, para formular o panteão
de sua religião. E há ainda quem remonte
a criação de seus deuses a culturas
ainda mais longínquas, relacionando, por exemplo,
Aiwass, a entidade que ditou o Livro da Lei para
Crowley, com deuses cultuados na antiqüíssima
Suméria.
A religião thelêmica enfim, talvez seja
o fantástico produto de uma mentalidade incrivelmente
sincrética, extraordinariamente ampla, alucinada
e diversificada, que jamais permitiu se limitar por
quaisquer fronteiras impostas seja por uma cultura
seja por uma sociedade. Este é o principal
exemplo e o legado da Besta, Aleister Crowley.
Certamente o legado da Besta surpreendeu aqueles
que esperavam, e até mesmo ansiavam, seu esquecimento.
Esses nunca poderiam imaginar que a quantidade de
admiradores e discípulos da Tradição
revivida por Crowley, o Culto da Besta, ou o Culto
das Sombras, aumentasse de forma "assustadora,
chegando mesmo a comprometer as bases morais, nas
quais nossa sociedade está erigida".
Talvez esses tenham esquecidos que essas mesmas bases
morais, nas quais foi estabelecido aquilo que hoje
denominamos sociedade, sejam as únicas reais
responsáveis pela obtusa condição
em que se encontram centenas de milhões de
homens e mulheres, massacrados por não qualificáveis
condições de vida, seguro retorno do
bi-milenar investimento sócio-religioso e
econômico, que é a miséria.
Thelema, hoje em dia
Atualmente, a Lei de Thelema conta com milhares de
seguidores em todo mundo. A ampla maioria destes
seguidores prefere não estar associado diretamente
a nenhum grupo institucionalizado, que pretenda aparecer
publicamente como representante da Lei de Thelema.
Quando muito, estes seguidores se reúnem em
pequenos grupos, não oficiais, pois somente
neles há a possibilidade do livre debate e
estudo das premissas thelêmicas, de acordo
com os textos de seu profeta, Aleister Crowley.
Contudo, até mesmo numa religião onde
se pressupõe que a liberdade irrestrita seja
a grande motivação, novamente existe
a ameaça de se fazer valer o ditado homo
homini lupus (o homem é o lobo do homem).
Assim, embora atualmente contando com um inexpressivo
séquito,
existem algumas poucas seitas thelêmicas institucionalizadas,
que se digladiam ferrenhamente pela posse das rentáveis
obras de Aleister Crowley. O objetivo de tudo é,
seguindo o conhecido modelo empregado pela Igreja
Católica quando de seu famoso Concílio
de Nicea, se transformar na única representante
oficial da religião da nova era, condenando
qualquer outra opção a marginalidade.
Estas seitas, infelizmente, por mais novas que sejam,
já têm suas histórias marcadas
pelo dogma, pragmatismo e pelo fanatismo, impingindo
perseguições a todo e qualquer estudante
sincero que não se submeta às suas
rédeas.
No Brasil, a Lei de Thelema, apenas a partir da década
de 1970 é que viria ganhar certa popularidade,
através da obra do genial Raul
Seixas. Alguns
de seus sucessos, muitos destes compostos em parceria
com Paulo Coelho, tiveram
como origem os textos do mago Aleister Crowley. Atualmente,
graças às
facilidades promovidas pela Internet, cresce no Brasil
o número de estudantes não sectários
(aqueles que não pertencem a Ordens sectárias)
da Lei de Thelema.
A Lei de Thelema está completando 100 anos.
Aleister Crowley para muitos representa o papel de
Profeta, Vate e Apóstolo. Sua grande aspiração
reflete a aspiração de todo ser humano:
o anseio do homem por Liberdade. Seu trabalho pode
ser compreendido não apenas como o resultado
dos caprichos de uma controvertida personalidade,
mas, principalmente, da necessidade humana de tomada
de consciência, necessidade de Vontade, necessidade
de entendimento. Este era todo o anseio de Crowley
e também o anseio de qualquer ser humano.
Isto é liberdade, liberdade apenas para a
realização da Vontade Verdadeira de
cada um de nós, nada mais.
Thelema pode ser livremente resumida como o eterno
anseio do homem insatisfeito querendo revolucionar.
Toda esta necessidade, de dar um novo sentido aos
estudos, de fazer do velho, algo de fato novo, agora
me faz relembrar das últimas palavras a mim
dirigidas pelo meu velho mestre, que apesar de sua
notável erudição, brilhantismo,
cortesia e sabedoria, sempre insistiu em permanecer
desfrutando de um completo saudável anonimato.
Momentos antes de partir para o Oriente Eterno, ele
me falou, feliz e reflexivo, que toda sua luta pessoal
por revolucionar a senda mística certamente
tinha feito de sua vida um exemplo para nós,
sedentos aprendizes. Contudo, se eu quisesse ainda
usufruir uma gota de sabedoria daquele mestre, que
escutasse uma inspirada canção. E ele
cantarolou, meio que risonho – saudosa Elis
Regina – “nossos ídolos ainda
são os mesmos e as aparências não
enganam não. Minha dor é perceber que
apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos, ainda
somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
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Posfácio:
Após
a publicação do leve artigo “Thelema:
Uma Religião da Nova Era” recebi uma violenta
contestação por parte de alguns poucos
inconformados correligionários de uma seita
thelêmica, notadamente conhecida por sua postura
sectária. Estes, freneticamente afirmavam, a
despeito de qualquer clara evidência contida
no meu texto, que thelema não era uma religião,
mas sim uma filosofia de vida. Pessoalmente, há muito
que evito entrar em qualquer debate que prometa ser
infrutífero, sobremodo quando tenho fanáticos
como contestadores. No entanto, visando apenas esclarecer
os meus leitores que, eventualmente, tenham sido algo
alvo do mesmo tipo de postura, preparei um brevíssimo
e respeitoso editorial que põe um ponto final
nesta tola questão. Caso vc queira conhecê-lo,
basta ler o Afinal:
Thelema é ou
não é uma
religião?.
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PARTICIPE VOCÊ TAMBÉM
DA LISTA DE DISCUSSÃO
THELEMA-BR
considerada a melhor (além de maior) lista de discussão
em
língua portuguesa, orientada a temática thelêmica |