A
Ordem do Templo e o Ideal Templário
por Carlos Raposo
As Ordens Militares sempre tiveram
vez na história
da humanidade pela grandeza dos momentos em que viveram,
pelos feitos e conquistas, pelo temor e inveja que causavam,
pela opulência de seus membros e, as vezes, pela
extravagância que os caracterizava.
Dentre as Ordem Militares mais famosas, a dos Cavaleiros
Templários, dissolvida
pelo papa Clemente V, há quase sete séculos, se destaca por uma
história repleta de façanhas, lugares e épocas tão
incomuns quanto exóticas. Dela fizeram parte os mais variados tipos de
personagens, dotados, ora dos mais elevados anseios espirituais ora dos mais
recônditos e inconfessáveis níveis a que o homem pode chegar.
E mesmo o cruel fim imputado à Ordem, em especial ao seu último
líder, Jacques de Molay, hoje em dia assumiu aquele caráter que
transformou a própria Ordem, como um todo, em mártir e em mito.
A história do Templo, que muitas vezes, pelo
próprio espírito da época em que
ocorreu, assume cores românticas, traz a todos
uma imensa variação de sentimentos em
uma espécie de glória nostálgica
que, por mais agradável que pareça, as
vezes enevoa sua compreensão. Que seja dito
que a Ordem dos Cavaleiros Templários, entretanto,
foi muito mais que puramente uma lenda: ela é um
fenômeno histórico.
Assim, rapidamente,
vamos passar a vista sobre esta magnífica história.
Quando Hughes
de Payens, em 1118, junto a outros oito Cavaleiros,
fundou a Ordem dos Cavaleiros Templários,
ou, simplesmente, os Templários, provavelmente
não tinha a mínima idéia das dimensões,
da riqueza e poder que ela acumularia nos seguintes
duzentos anos de sua história.
Mas por que
a Ordem dos Cavaleiros Templários
foi formulada?
Ao final do
século XI, teve início a
Primeira Cruzada.
A Cristandade
então encontrava-se tumultuada
e dividida; a Europa, enfrentando uma espécie
de estagnação sócio-econômica
e cultural, era solo propício para guerras e
disputas internas que só colaboravam com o tenso
clima que dela se apossara.
O novo Sumo
Pontífice a ocupar o Trono de São
Pedro, Urbano II, eleito papa em 1088, revelou-se,
muito além daquelas qualidades e funções
cabíveis ao suposto representante de Deus na
terra, um notável político e excelente
articulador.
Um dos sonhos
da Igreja da época, e também
de Urbano II, era retomar a cidade de Jerusalém,
cuja posse estava nas mãos dos "infiéis" do
islão havia mais de quatro séculos, desde
o ano 638 d.C., quando fora tomada pelo exército
muçulmano. Os tesouros ali encerrados, além
do histórico valor para o cristianismo da própria
cidade em si, sendo o sonho de todo a alta hierarquia
do clero, poder "unificar" cristãos
ocidentais e orientais sob o jugo único do pontificado
Papal, eram motivos mais que suficientes para justificar
uma empreitada a terra santa, fosse qual fosse o preço
a ser pago.
A habilidade
política do Papa Urbano II conquistou
a submissão espiritual de praticamente todos
os cristãos ocidentais, fazendo com que parte
da Europa entendesse que havia uma necessidade premente
e divina de se recuperar aquilo que, por direito, pertencia
aos cristãos. E desta forma foi articulada a
Primeira Cruzada, cujo divino objetivo era "devolver
a Deus o que era de Deus". Estava iniciada a era
das guerras santas.
E assim Jerusalém viria a cair sob domínio
cristão ocidental.
Poucos anos
após a queda de Jerusalém,
em 1118, alguns Cavaleiros se reuniam para prestar
um nobre serviço ao reino cristão.
As peregrinações, naquela época,
eram costumeiras entre os europeus, principalmente
entre os cristãos, sendo uma atividade abençoada
e encorajada pela Igreja e pelo Papa. Um dos caminhos
de maior importância, senão o mais importante,
era justamente aquele que conduzia os peregrinos à Terra
Santa e a Jerusalém. Esse caminho, contudo,
não era seguro, deixando os que nele se aventurassem
a toda sorte de bandidismo, assaltos, etc, e mesmo à morte.
Nove Cavaleiros
então, liderados por Hughes
de Payens, todos veteranos da Primeira Cruzada, estabeleciam
a Ordem dos Cavaleiros de Cristo, tomando o tríplice
voto de Castidade, Pobreza e Obediência, dedicando
suas vidas, dali até a morte, à proteção
dos peregrinos e à garantia do Reino de Cristo.
O então novo Rei de Jerusalém, Balduíno
II, que sucedera seu primo Balduíno I, logo
viu na atitude dos nobres e valorosos cavaleiros algo
de grande valor e importância. A título
de reconhecimento e confiança, cedeu-lhes terras
e construções para que lhes servissem
de acomodação e base. As terras eram
situadas no local onde supostamente havido sido construído
o famoso Templo de Salomão. Não tardou
e os Pobres Cavaleiros de Jesus Cristo passaram a se
denominar de Cavaleiros do Templo de Salomão,
ou simplesmente de Cavaleiros Templários.
E assim nascia a Ordem do Templo.
De forma rápida a Ordem ia crescendo, tanto
política quanto economicamente. Estavam diretamente
sob a autoridade papal, e, portanto, sem responsabilidade
para com qualquer Rei ou nação.
Passaram a possuir
terras, castelos e muito dinheiro. Tamanha se tornara
a sua força que mesmo Reis
e Príncipes passariam a confiar toda fortuna
que possuíam à sua guarda. Muito da riqueza
Templária advém disto, pois boa parte
dos bens conferidos à guarda Templária,
quer por um motivo ou outro, jamais retornaria às
mãos de seu dono original.
Mas o início do século XIV encontraria
uma Europa bem distinta daquela de duzentos anos antes.
As derrotas do exército cristão, no oriente,
impunham um definitivo cessar da era das grandes cruzadas.
Não mais haveria terras santas a serem defendidas
e a idéia de Ordens Militares logo tomaria ares
de anomalia, visto não mais haver necessidade
de sua principal função: a proteção
dos peregrinos.
Nessa época, Felipe IV, reinava na França.
Cognominado o Belo, Felipe IV, implacavelmente coerente
em seus atos, realçando os aspectos sacerdotais
de um monarca, transformara-se em uma espécie
de semideus, conduzindo seu reinado com mão
de ferro.
Felipe, como
parte de um maquiavélico plano,
tentara fazer parte da Ordem do Templo. Mas, para sua
ira, seu pedido de ingresso lhe fora negado.
A história, repleta de exemplos de Reis dominados
pela Igreja e por Papas, teve em Felipe, o Belo, justamente
o oposto. E a lenda a nos conta como ocorreu o secreto
encontro entre Felipe e um certo inexpressivo arcebispo,
nas ruínas de um mosteiro em plena floresta.
Felipe então propunha fazer o arcebispo papa,
em troca de seis favores, dos quais um, só lhe
seria revelado após a eleição.
O quadro clérico da época destacava-se,
não pela presumida divina representação
terrena de Deus, atribuída a Santa Igreja Católica,
mas pelas fortes disputas internas por posições
de destaque político dentro do corpo eclesiástico.
Felipe, bem consciente deste fato, acertara em cheio
na sua escolha. Assim, sob sua influência, um
sujeito fraco e ganancioso, o Arcebispo Beltrão
de Got, subia ao Trono de São Pedro como Papa
Clemente V, em novembro de 1305.
O favor oculto
devido a Felipe por Clemente V, era a dissolução da Ordem dos Templários:
só um papa poderia fazê-lo, pois os Templários
não estavam submissos a mais ninguém,
e Clemente V seria o instrumento de Felipe, o Belo.
Felipe, no intuito
de elaborar um plano de ação
contra os Templários, fez-se infiltrar na Ordem
através de vários agentes. O fim da Ordem
do Templo estava desencadeado. Em 13 de outubro de
1307, Jacques de Molay e cerca de cinco mil Templários,
quase todos aqueles existentes na França, foram
encarcerados pelos homens do Rei Felipe, o Belo.
As acusações mostravam heresias as mais
diversas, a maioria destas sendo bem comuns aos cotidianos
processos movidos pela Santa Inquisição:
negação do Cristo, blasfêmia contra
Deus, homossexualismo, idolatria, conluio com os infiéis
do islã, etc.
O processo de
inquisição contra os Templários
continuou por anos. Seu ápice ocorreu em 18
de março de 1314, quando o último líder
dos Templários, Jacques de Molay e um outro
irmão da Ordem, foram arrastados à morte
na fogueira da Santa Inquisição.
A lenda nos
diz que, em meio as chamas, pouco antes de morrer,
ouviu-se a forte voz de Jacques de Molay, o último Grão Mestre Templário,
amaldiçoando o papa, o Rei e sua família:
que se os Templários tivessem sido injustamente
condenados, que o papa Clemente fosse convocado em
quarenta dias, e o Rei Felipe dentro de no máximo
um ano, para o julgamento final de Deus.
Se isso é ou não verdade, não
se pode afirmar. Contudo, Clemente morreu trinta e
três dias depois e o Rei Felipe, o Belo, o seguiu
em pouco mais de seis meses.
Aceite-se ou
não esta Lenda do último
Grão-Mestre da Ordem do Templo, as mortes permanecerão,
assim como permanecerá o próprio mito
que cercou os Cavaleiros Templários.
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