Uma
Aventura Rosacruz
Nota
Editorial: Este Artigo foi publicado na Revista
Sexto Sentido nº 55, da Mythos Editora.
Para esta versão
on-line de "A Aventura Rosacruz",
foram mantidos o texto original do artigo bem
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por
Carlos Raposo
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APRESENTAÇÃO:
Mitos
que envolvem a realização dos
mais altos anseios religiosos estão continuamente
presentes em histórias e lendas. Os elementos
que compõem esses mitos normalmente aparecem
na forma de heróis fantásticos, viagens
por enigmáticos mundos desconhecidos, longa
jornada de aprendizado, dificuldades, perseguições,
enfim, todo um aparato de símbolos e ideais
dispostos de modo grave, cuja proposição
visa causar um certo impacto e o necessário
trauma em nossa consciência.
Isso parece ser necessário para que, ao final,
possamos realizar os aspectos internos a tudo aquilo
exposto e prometido através das fábulas
e das aventuras. Os mitos ? e mesmo aqueles equivocadamente
tomados como factuais verdades(1) podem ser entendidos
como possuidores de um propósito único,
qual seja, através de um drama, expor certos
mistérios que promoverão uma alteração
no estado mental do observador, dando condições
para que se processe algum tipo de crescimento
na humanidade como um todo, aprimorando sua consciência
e, assim, galgar uma possível melhoria deste
mundo em que vivemos.(2)
Visto isso, passemos agora a uma pequena investigação,
de cunho parcialmente histórico e filosófico,
sobre uma das aventuras que mais chamam a atenção
dos assim chamados Estudantes dos Mistérios.
A palavra chave da aventura que agora apresentamos é Rosacruz.
Dita de modo solto, ou mesmo indiferente, essa
palavra simples tem o poder de despertar abrasadoras
paixões
e intensos sonhos. Tal é a carga histórica,
mística e filosófica que o termo
Rosacruz carrega, que não raro é encontrar
aqueles que nele depositam as tendências
de tudo o que hoje em dia se convencionou chamar
de oculto ou “esotérico”.
Porém, qual a ancestral origem do termo? Seria
o insondável continente Atlante? E seu verdadeiro
significado? O que significa ser um Rosacruz? Terão
os Rosacruzes todos os poderes e as faculdades
divinas a eles atribuídas?
Certamente, responder taxativamente a todas esses
questões com um entusiasta “Sim!” seria
a pretensão maior de qualquer ensaio com
tendência
sensacionalista ou, no mínimo, com queda
pelo extravagante. Entretanto, pensamos ser mais útil
ao espírito humano, ao conhecimento e ao
bom senso, fazer uma rápida investigação
histórica e tentar nos acercarmos daquilo
que de mais concreto existe sobre o mito rosacruciano.
Deste modo poderemos entender tanto sua origem
quanto as hipóteses que serviram de argumento
para o advento do movimento Rosacruz.
Acreditamos que esse será um bom modo de nos
aproximarmos da compreensão da fantástica
Aventura Rosacruz, pois não só possibilitará rechaçar
os bem conhecidos apelos e excentricidades que
o vocábulo atualmente sugere, como também
porque permitirá não esquecer que,
oculta em sua própria expressão,
a Rosacruz ? isso é fácil de se admitir
? ao escapar da própria história
que a sustenta, pode ter se transformado em um
misterioso símbolo, cujo real significado,
parece mesmo pertencer a cada um de nós.(3)
ORIGENS:
A primeira dificuldade
que o termo Rosacruz trás
está relacionada com o montante de material
para pesquisa. Ele é vastíssimo. Contudo,
tanto para o horror do pesquisador com moderado senso
crítico quanto para o delirante deleite das
mentes menos afortunadas, esse material, como enfaticamente
afirmado por Yates,(4) é imprestável
em sua grande maioria.
Mas, se a primeira dificuldade está justamente
na qualidade do material para pesquisa, seguramente
um dos pontos mais polêmicos do estudo dessa
matéria, diz respeito à origem
da Rosacruz.
Alguns são enfáticos na fantástica
afirmação de que ela tem suas raízes
no antigo Egito por volta de 1500 a.C., na XVIII
Dinastia, na época de Thutmosis III, considerado
um dos maiores faraós de toda a história
egípcia. Segundo esses mesmos autores, algumas
décadas depois, Amenofis (ou Amenhotep IV),
também conhecido por Akhenaton, teria sido
iniciado nos mistérios da irmandade esotérica
organizada por seu predecessor, Thutmosis III. O
então iluminado Akhenaton, inspirado pelos
novos ensinamentos e mistérios, adotaria o
regime monoteísta de religião, com
seu culto ao Deus único Aton, dando início
a um novo áureo tempo à civilização
egípcia. Certos autores vão ainda além,
afirmando ou insinuando que o próprio faraó Akhenaton
teria sido, nada mais nada menos, que o fundador
da Rosacruz.(5)
Muito embora existam os que considerem o faraó Akhenaton
um iluminado, a história não é lá muito
cortês com sua pessoa. Alguns historiadores
apenas o citam como tendo sido um militar totalmente
fracassado, responsável pela ruína
de parte de seu império;(6) outros o têm
como um alienado, cujo delírio monoteísta
o levou a viver “isolado enquanto o reino mais
antigo do mundo ruía desgovernado, esquecido
e muitas vezes revoltado”.(7)
Provavelmente a verdade sobre o desempenho de
Akhenaton à frente
do império egípcio esteja em algum
ponto entre esses dois pólos, mas não
caberia aqui essa investigação. Entretanto,
tenham sido ou não grandes nomes para o antigo
Egito, não existe sequer um confiável
argumento histórico (seja na história
oficial ou não) que comprove a fundação
da Rosacruz por algum faraó, ou mesmo
que ponha a origem dessa fraternidade nas terras
banhadas pelo Nilo.
Contudo, não podemos deixar de dizer que,
como indicado por tantos autores, parece existir
um conhecimento perene e ancestral que acompanha
o ser humano em sua escalada evolutiva. Sendo assim, é possível
supor que este conhecimento, que foi preservado através
dos tempos, dos templos e das civilizações,
estivesse presente em nosso mais remoto ancestral
e quiçá antes dele. Deste modo, não
seria de todo absurdo supor que o sistema de pensamento
e a filosofia rosacruciana fizessem parte de um todo
maior, cujas raízes se fundem na antigüidade
da própria tradição oculta
ocidental.
Ao que tudo indica, a própria origem do
termo rosacruz está no nome de um certo Cristian
Rosenkreutz, personagem principal de uma das lendas
mais notáveis que a imaginação
do homem concebeu, que teria vivido nos séculos
XIV e XV.
A despeito de qualquer origem fantástica que
possamos atribuir à Rosacruz, atualmente existem
duas hipóteses que a pesquisa indica como
sendo as mais prováveis. Ambas têm raiz
nos bem conhecidos manifestos rosacruzes lançados
na Europa a partir da segunda década do Século
XVII.
O primeiro desses três manifestos levava o
título (abreviado) de Fama
Fraternitatis,(8)
aparecendo impresso por volta de 1614(9) em uma
pequena cidade chamada Cassel, na Alemanha. O
segundo manifesto, conhecido de modo genérico
por Confessio,
viria à luz no ano de 1615, simultaneamente
em Cassel e Frankfurt. O terceiro e último
manifesto, As Bodas Químicas de Cristian
Rosenkreutz,
foi levado a público em 1616, publicada
em Estrasburgo.
Vale lembrar que, quando do aparecimento público
desses três manifestos, a sua autoria não
era conhecida. Apenas alguns anos depois ? como veremos
mais à frente ? é que apareceria
um suposto autor para o terceiro dos manifestos,
as Bodas.
Porém do que tratavam esses três
documentos?
O primeiro deles, Fama, apresenta a vida
do fundador da Fraternidade Rosacruz,(10) o monge
Cristian Rosenkreutz (Irmão C.R.),(11) nascido na Alemanha em 1378,
e sua viagem à terra sagrada. Durante a sua
jornada, o Irmão C.R., após a morte
de seu companheiro de senda, se desvia de seu itinerário
original e chega na Arábia, onde o então
jovem monge passaria a receber misteriosas instruções
secretas. De posse desse conhecimento, Rosenkreutz
volta à Europa com o intuito de tornar público
o seu novo saber. Após uma série de
dificuldades, Rosenkreutz é rejeitado. Voltando
para a Alemanha, ele é ajudado por quatro
Irmãos na tradução do misterioso
Livro “M”, cujo conhecimento deveria
ser mantido em segredo até que a humanidade
estivesse devidamente preparada para recebê-lo.
Assim, é criada a Fraternidade Rosacruz,
com o intuito de manter o conhecimento daquele
grupo de Iniciados.
A Fraternidade Rosacruz, segundo a concepção
de seus primevos criadores, funcionaria tendo os
seguintes seis preceitos e regras básicas,
a serem estritamente observados:
• Estavam proibidos de exercer qualquer profissão,
a exceção daquela que curaria os enfermos,
e isso a título de caridade.
• Não deveriam usar trajes que os distinguissem
da população local, como acontecia
com o clero e com outras ordens religiosas, mas
antes, deveriam passar como se fossem habitantes
dos locais onde eles estivessem.
• Todos tinham a obrigação de estarem
presentes em um dia previamente marcado, denominado
de “Dia C”, na sede do Espírito
Santo, onde todos os rosacruzes deveriam se reunir,
anualmente. No caso de impossibilidade, explicar por
escrito o motivo da ausência.
• Cada Irmão Rosacruz(12) deveria procurar
e, no caso de encontrar, informar a existência
de pelo menos uma pessoa de valor que pudesse sucedê-lo,
quando necessário.
• As Letras CR seriam o selo maior de reconhecimento.
• A Confraria deveria permanecer oculta por pelo
menos um século.(13)
Todos os Irmãos Rosacruzes daquela época
juraram absoluta fidelidade a esses seis preceitos.
Em suma, além da jornada do Irmão C.R.
e da organização da Fraternidade Rosacruz,
o Fama expõe a situação do mundo
naquela época, apresentando os propósitos
da Fraternidade e, por fim, os objetivos a serem
alcançados através do conhecimento
obtido e ensinado primeiramente por Rosenkreutz.
Alguns anos mais tarde, aparece o segundo dos
manifestos rosacruzes, Confessio, que ao que
tudo indica, parece ter como base o famoso escrito
Mona hyeroplyphica de John Dee,(14) o notável Astrólogo
e Matemático Isabelino.(15) A Confessio expõe
em seus muitos capítulos a estrutura,
as concepções
intelectuais da Ordem e os princípios
rosacruzes. Necessidades de reformas religiosas
como, por exemplo, procurar ser totalmente independente
do “império” papal,
eram um dos pontos importantes desse opúsculo.
O terceiro documento Rosacruz era o maior entre
todos estes até aqui apresentados. As
Bodas Químicas
de Cristian Rosenkreutz narrava, de forma alegórica
e fantástica, o suposto casamento alquímico
do fundador da Fraternidade, quando este já contava
com oitenta e um anos de idade. Rosenkreutz, teria
ficado durante sete dias inteiramente absorvido por
um enlace místico repleto de visões,
jornadas ritualísticas e representações
enigmáticas.
Estes três pequenos livros foram o suficiente
para causar um alarde sem igual em toda a Europa
do século XVII. A cada aparição
de cada um destes documentos, a fértil imaginação
setecentista era tomada de assalto por um crescente
desejo comum de busca pela tão estimada, misteriosa
e invisível fraternidade criada por Cristian
Rosenkreutz. Porém, onde a encontrar?
Como resultado de toda euforia rosacruciana,
vários
foram aqueles que tentaram estabelecer contato com
esses Iniciados. Como conseqüência imediata
desta frenética busca, um grande número
de obras foram editadas, sempre tendo como base os
manifestos rosacruzes. Nomes como Michael Maier e
Robert Fludd apareciam como admiradores das doutrinas
rosacruzes. O próprio Maier, que na época
já era uma figura de destaque em toda a Europa,
se transformaria em um dos mais fervorosos defensores
dos Rosacruzes. Durante esse período, uma
série de organizações também
teriam a sua vez nos anos que se seguiram a publicação
dos primeiros manifestos rosacrucianos.
O mito Rosacruz estava finalmente estabelecido.
A
ROSACRUZ: FATO OU FANTASIA?
Após examinar
o entusiástico conteúdo
dos manifestos, é natural que muitas questões
despontem na mente do estudante que se aventura na
pesquisa do símbolo rosacruciano. Dessas tantas
intrigantes questões, provavelmente, duas assumem
o caráter decisivo no processo de interação
dos fatos que os envolveram. Assim, todos perguntarão:
quem, na verdade, é o responsável pela
descrição da saga do Irmão C.R.,
e quem escreveu os três manifestos? E a Ordem
Rosacruz em si, seria puramente uma alegoria, um mito,
uma fantasia, ou seria de fato o fruto de uma incrível
realidade mágica, que poderia estar ao alcance
de qualquer um?
Para essas vitais questões sobre a realidade
ou não do advento Rosacruz, nós provavelmente
não teríamos nenhum indício
de resposta, caso não fosse encontrado na
autobiografia de Johann Valentin Andreae uma declaração,
com ares de confissão, de que teria sido ele
o autor das Bodas, escrita em 1605, bem antes de
sua publicação, quando Andreae contava
com apenas dezenove anos de idade.
Alguns pesquisadores e especuladores, tendo esse
dado como única base concreta em todo o material
de pesquisa, vão mais além, afirmando
que o próprio Andreae, não só era
o responsável pelo Bodas, mas também
teria escrito tanto a Fama quanto a Confessio.
Com
esse novo personagem, uma outra questão
desponta: quem foi Johann Valentin Andreae e qual o
seu papel nessa história?
Andreae nasceu em
1586, no estado luterano de Württemberg.
Sua família, tradicionalmente de origem católica,
teria se convertido ao protestantismo, sendo que
o seu avô, Jacob Andreae, fora um dos primeiros
expoentes e pioneiro da reforma luterana, chegando
a ser conhecido como “o Lutero de Württemberg”.
Nascido em berço protestante, Andreae, através
de seu pai, também logo tomaria conhecimento
do simbolismo alquímico, matéria de
enorme interesse para o meio erudito da época.
Após
a morte de seus pais, Andreae se estabelece em Tubinga.
Nessa época,
na passagem do século XVI
para o século XVII, a Europa, ainda agitada
pelas conseqüências promovidas pela reforma
luterana, vivia em meio a toda ansiedade provocada
por um sem número de pequenos grupos independentes,
os mais variados possíveis, que acalentavam
sonhos reformistas a procura da sociedade ideal.
Normalmente,
esses grupos eram formados por idealistas, filósofos,
e, de modo geral, por pessoas bem instruídas
e inteligentes. Andreae veio a participar de um desses
grupos, que ficou conhecido pelo nome de Círculo
de Tubinga.
Este Círculo
teria fundamental importância
na formação dos ideais do jovem Andreae,
sendo creditado a este movimento, o alicerce dos belos
ideais apresentados na forma dos três manifestos
rosacruzes.
Alguns anos mais tarde,
porém, em
sua autobiografia, Andreae renegaria totalmente não
só a
versão fatual da saga do místico Cristian
Rosenkreutz, como também afirmaria que tudo
aquilo concebido como sendo “rosacruz” não
passava de um grande ludibrium, propositadamente
elaborado e sem nenhuma fundamentação
histórica.
Não se sabe
ao certo se essa “confissão” de
Johann Valentin Andreae fora movida por um repentino
senso de honestidade e consciência ou - versão
essa preferida pela maioria dos estudantes - tivesse
como sua causa a violenta reação e
a forte pressão que a Igreja Católica
exerceu diante da possibilidade Rosacruz e sobre
muitos grupos com tendências reformistas.
Então,
conhecidos os três manifestos,
sua suposta origem e autor, como também algumas
razões do aparecimento público de uma
suposta organização secreta, como dito
anteriormente, duas tendências principais são
estabelecidas:
A primeira aponta
para uma decisiva negação
de toda a lenda, a demanda e a própria existência
do ilustre Irmão Cristian Rosenkreutz, artífice
místico da Fraternidade Rosacruz. Para os
defensores desse ponto de vista, partindo do princípio
que o próprio autor dos três manifestos
que dão sustento a toda a saga Rosacruz, faz
uma pública retratação, afirmando
que tudo não passou de um “trote”,
um engodo desnecessário, então tudo
aquilo que de um modo ou de outro, direta ou indiretamente,
está relacionado ao tema, tudo, absolutamente
tudo, é falso, não merecendo, inclusive,
sequer comentários.(16)
Muitas vezes, aqueles
que adotam a postura acima são
enfáticos em afirmar que tudo não passava
de uma “farsa”(17) protestante mal articulada.
Até mesmo
o nome Rosacruz seria de origem protestante, pois
teria vindo das insígnias de Lutero, afinal,
ali era encontrada uma rosa. Também é feita
uma associação entre o Brasão
da família Andreae com o mote Rosacruz, visto
haver ali algumas rosas e também uma cruz...
(18)
A segunda hipótese,
sob certo ponto de vista histórico bem menos
rígida que
a outra, agrada muito mais a mente especulativa e
romântica,
pois vem endossar a idéia de que realmente existiu(19)
uma Fraternidade Rosacruz.
Nesse caso, a Fraternidade
Rosacruz consistiria de uma ordem oculta às
mentes profanas, que trabalhava em total segredo,
visando a evolução
do ser humano e da sociedade que o nutria. Essa Ordem,
cujos Iniciados estariam habilitados a se reconhecer
mutuamente sem despertar a atenção
do cidadão comum, era invisível e,
embora praticamente inacessível ao vulgo,
teria a capacidade de reconhecê-lo e o poder
de contatá-lo,
com o propósito de que essa feliz alma ingressasse
em suas fileiras, caso a mesma estivesse em sublime
conformidade com os nobres ideais divulgados nos
manifestos. Uma vez por ano, os Iniciados desse Colégio
Invisível, se encontrariam em um misterioso
local,(20) com o objetivo de, através da troca
de experiência, aumentar ainda mais o conhecimento
de cada um deles.
Porém, mesmo
conhecendo essas duas hipóteses,
opiniões inteiramente contrárias em conhecimento,
metas e sentimento, não seria difícil
ventilar, mesmo que também no campo das hipóteses,
ainda uma terceira possibilidade para toda a Aventura
Rosacruz.(21)
E esta nova suposição,
apreciada pela alma que anseia o mistério e
bem tolerada pelo espírito crítico, possivelmente
trará luz
a ambos.(22)
Talvez o problema
não seja crer
ou não
crer na Aventura Rosacruz, mas entendê-la. Talvez
a solução para o enigma não esteja
meramente no cego aceitar de uma lenda sem fundamentação
factual, mas também ele não estará em
um frio parecer histórico condenando toda a
alegoria.
Porém, podemos
tentar absorver seu significado mítico.
Assim,
talvez seja de bom grado se pudéssemos
entender todo o processo que compreende a alegoria
rosacruz: a vida de seu suposto criador e mentor,
Frater C.R.; sua longa jornada em busca de um conhecimento
superior, com os sábios do Oriente distante;
o retorno a sua terra natal, na tentativa de organizar
uma augusta Fraternidade que brindaria a humanidade
com dias mais gloriosos; etc. Tudo funcionaria como
um mito, ou um rito, a ser realizado no íntimo
de todo estudante.(23)
Afinal, é difícil
supor existir alguém
que, uma vez tendo a chance de examinar, mesmo que
de relance, a epopéia de heróis fantásticos,
não tenha se sentido inclinado a imaginar-se
na pele do herói observado.
E quanto a aventura
Rosacruz, bem, ela parece continuar...
E que assim
seja.
-------------------------
Notas:
(1) E destes,
o mais famoso é, sem sombra de
dúvidas, o mito cristão.
(2) Ou seja, os próprios objetivos do evento
conhecido pelo nome “iniciação”.
(3) Esta ressalva é de fundamental importância
para a compreensão deste ensaio.
(4) Frances A. Yates, O Iluminismo
Rosacruz, ed.
Cultrix-Pensamento, pag. 10. Esta obra é enfaticamente
recomendada a qualquer interessado no assunto.
(5) Essa fantástica versão egípcia
para a origem da Rosacruz é bem explorada
no pitoresco Perguntas e Respostas
Rosacruzes, H.
Spencer Lewis, Ed. Renes, bem como em vários
artigos disponíveis na Internet.
(6) G. Oncken, E. Meyer - História del
Antiguo Egipto, ed. Impulso - Argentina, 1943, p. 576.
(7) Arthur Franco - A Idade
das Luzes, Ed. Wodan,
Porto Alegre, 1997, p. 14.
(8) Também conhecido por Fama.
(9) Alguns autores divergem sobre essas datas. Aqui,
seguimos Yates, que é a base da maioria dos
relatos sobre o tema. Sobre a primeira aparição
do Fama, as fontes indicam, inclusive a própria
Yates, que ele já estava em circulação
em forma de manuscrito desde 1610.
(10) Esta passagem do Fama que diz “Nosso
finado Pai, Fr. C.R., de espírito religioso
e elevado, altamente iluminado, alemão, chefe
e fundador de nossa fraternidade...”, põe
fim na discussão sobre a hipótese egípcia
da origem da Fraternidade Rosacruz. (Fama
Fraternitatis,
Confessio, Muñoz Moya y Montraveta, Sevilha,
1984)
(11) Durante todo o escrito da Fama, apenas há indicação
para as iniciais C.R.; finalmente, apenas na Confessio é que
vamos encontrar a referência ao nome de Cristian
Rosenkreutz.
(12) Ou Irmão Rosa Cruz, ou ainda Frater Rosea
Crucis, ou simplesmente, F.R.C.
(13) Bayard, Jean-Pierre, La
Spiritualité de
la Rose-Croix, Éditions Dangles, 1990. Cap.
I.
(14) Alguns estudiosos não deixam de ser surpreender
com algumas notáveis semelhanças entre
o 'Mago' inglês John Dee e o fundador
da Fraternidade Rosacruz, Cristian Rosenkreutz. No
caso de se entender a Rosacruz como uma fantasia,
certamente seus criadores não poderiam ter
encontrado um modelo mais adequado do que o Mago
Isabelino.
(15) Uma ótima exposição dos
fatos que envolveram a filosofia oculta durante a
Inglaterra da Rainha Isabel é dada por Yates
em The Occult Philosophy in
the Elizabethan Age,
R&Keagan Paul,
1979.
(16) E apesar de existir um bom número de
pessoas que negam a existência do Frater R.C.,
a cada dia que passa, vemos crescer a busca do entendimento
desse, digamos, herói mítico... Libertas
inaestimabilis res est...
(17) O termo “farsa” é um dos
significados atribuídos à palavra latina
ludibrium. Um outro curioso significado aponta para “peça”,
no sentido “peça teatral”.
(18) Mas se formos levar todas aparições
de rosas e cruzes como uma inegável indicação
de alguma coisa relacionada a rosacruz, certamente
perderíamos uma vida inteira apenas localizando
tais símbolos... A origem da associação
de rosas e cruzes parece estar localizada em um romance
de cavalaria do final Idade Média, em meados
do século XII, chamado O
Romance da Rosa.
(19) E que, segundo os entusiastas do assunto, certamente
os adeptos dessa segunda hipótese, a Rosacruz
continuaria a existir até hoje, sempre movida
pelos mesmos propósitos para os quais fora
criada.
(20) Este local recebe, de acordo com as tradições,
vários motes, tais como Santo Santuário,
Templo do Espírito Santo, Catedral da Alma,
Cidade das Pirâmides, etc.
(21) É claro, não é intenção
confundir o leitor, apresentando uma outra possibilidade
Rosacruz... Mas, talvez, um ponto médio entre
o “sim” e o “não”,
entre o “é tudo mentira” e o “tudo é verdade”,
seja algo interessante de se meditar.
(22) Embora essa suposição também
possa suscitar a ira do crédulo e o deboche
do crítico, ainda assim arriscamos expô-la.
(23) No início de nossa exposição,
mencionamos algo assim: “Os mitos - e mesmo
aqueles equivocadamente tomados como fatuais verdades
- podem ser entendidos como possuidores de um propósito único,
qual seja, através de um drama, expor certos
mistérios que promoverão uma alteração
no estado mental do observador...”, e esta
proposição
se encaixa perfeitamente aqui.
-------------------------
Bibliografia:
Andreae,
Valentin - Las Bodas Quimicas
de Cristian Rosacruz (Muñoz Moya y Montraveta, Sevilha,
1984)
- Fama Fraternitatis, Confessio (Muñoz Moya y Montraveta, Sevilha, 1984)
Arnold, Paul - Histoire des
Rose-Croix et Les Origines de la Franc-Maçonnerie (Mercure de France, 1990)
Bayard, Jean-Pierre, La Spiritualité de la Rose-Croix (Éditions
Dangles, 1990)
Frances A. Yates, O Iluminismo Rosacruz, (ed. Cultrix-Pensamento)
- The Occult Philosophy in the Elizabethan Age (R&Keagan Paul, 1979)
Franco, Arthur - A Idade das Luzes (Ed. Wodan, Porto Alegre, 1997)
G. Oncken, E. Meyer - História del Antiguo Egipto (ed. Impulso - Argentina,
1943)
Hall, Manly P. - The Secret Teaching of All Ages (The Philosophical Research
Society, 1975)
Lewis, H. Spencer - Perguntas e Respostas Rosacruzes (Ed. Renes)
McIntosh, Christopher - The Rosycrucians (Thorsons Publishing, 1987) ------///\\\------
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