Fernando
Pessoa era Membro da A.'.A.'.?
por Carlos Raposo
www.artemagicka.com
Saudações
em L.V.X.
Escreveram-me
perguntando sobre o envolvimento de Fernando Pessoa
com a religião thelêmica,
bem como com as ordens que a representam. O questionamento é muito
válido e tem como base a crença entre
alguns thelemitas brasileiros, de que Pessoa fosse
alguém que possuísse um alto grau dentro
do sistema iniciático da A.'.A.'.
Mas, sejamos
bem claros em relação a
este assunto: embora Pessoa houvesse se relacionado
brevemente com Crowley, o célebre poeta lusitano
jamais possuiu qualquer relação direta
com qualquer Ordem de natureza thelêmica. Indo
além, podemos até mesmo afirmar que Pessoa
nunca pertenceu a Ordem iniciática alguma, seja
esta thelêmica ou não.
Mesmo levando
em conta a boa impressão que, inicialmente,
tanto Crowley quanto a sua religião causaram
em Pessoa, considerá-lo um "thelemita" é algo
deveras precipitado. Todos nós precisamos ter
um certo cuidado com boatos. Por isso, faz-se necessário
verificar as informações que julgamos
importantes, antes de repeti-las afoitamente. Como
a mente mediana de estudantes de ocultismo deixa a
desejar em termos de critério de seleção,
aceitando quase tudo que lhe é empurrado como
verdade, é fácil encontrar nesse meio
um número bem alto de informações
falsas.
Um dos lugares
comuns mais utilizados por Ordens, sejam elas quais
forem, é fazer com que seus
Iniciados acreditem piamente que fulano de tal, cicrano
ou beltrano - desde que, evidentemente, tais nomes
sejam nomes notáveis e famosos - pertenceram
a seu quadro de Adeptos. Isso ajuda bastante no "auto-enaltecimento",
afagando de modo confortável nossos egos, sempre
sedentos desse tipo de carinho. Assim, quando o seguidor
de uma seita afirma que "faço parte da
mesma Ordem de Fernando Pessoa", por exemplo,
ele nada mais anseia do que se comparar, em importância,
a pessoa citada.
Mas até mesmo esse tipo de engodo constitui
uma técnica, que visa criar uma aura de mistério
em quem passa a informação, deixando
aqueles que a aceitam num estado de perplexidade, totalmente
passível de manipulação. Crowley
usava isso e seus seguidores usam o mesmo artifício.
Outras Ordens mais tradicionais, como a Maçonaria
e diversas escolas que se apresentam como Rosacruzes,
também fazem franco uso deste tipo de informação.
Faz parte do jogo.
Devemos, contudo,
estar bem atentos para este tipo de lugar-comum,
conforme utilizado pelas Ordens, para saber o que
ele de fato significa. De outro modo, nós
mesmo nos transformaremos em instrumentos de propagação
de mentiras. Aliás, sobre o que seja um "lugar
comum", vale muito prestarmos atenção
na pequena e magistral explanação dada
pelo filósofo
Olavo de Carvalho (www.olavodecarvalho.org),
que diz:
Um topos, ou
'lugar-comum', é um trecho da
memória coletiva onde estão guardados
certos argumentos estereotipados, de credibilidade
garantida por mera associação de idéias,
independentemente do exame do assunto. Muitos lugares-comuns
formam-se espontaneamente, pela experiência social
acumulada. Outros são criados propositadamente
pela repetição de slogans, que se tornam
lugares-comuns quando, esquecida a sua origem artificial,
se impregnam na mentalidade geral como verdades auto-evidentes."
Os lugares-comuns
não são um simples
amontoado, mas organizam-se num sistema, que pode ser
analisado e descrito mais ou menos como se faz com
um complexo em psicanálise, e cujo conhecimento
permite prever com razoável margem de acerto
as reações do público a determinadas
idéias ou palavras. Contando com essas respostas
padronizadas, o argumentador pode fazer aceitar ou
rejeitar certas opiniões sem o mínimo
exame, de modo que, à simples menção
das palavras pertinentes, a catalogação
mental se faz automaticamente e o julgamento vem pronto
como fast food. A impressão de certeza inabalável é então
inversamente proporcional ao conhecimento do assunto,
e o sentimento de estar opinando com plena liberdade é diretamente
proporcional à quota de obediente automatismo
com que um idiota repete o que lhe ditaram.
No caso específico
de Fernando Pessoa, Marcelo Ramos Motta, por algumas
vezes, enfaticamente afirmou que ele era um 'Mestre
de Templo da A.'.A.'.. Da credibilidade que essa pessoa
possuía entre alguns que gostam
de repetir as suas palavras, nasceu a certeza inabalável
de que Pessoa, de fato, fazia parte da A.'.A.'., mas,
como diz o texto acima, tal certeza é inversamente
proporcional ao conhecimento que se tem sobre o assunto,
no caso, sobre a vida do letrado lusitano.
Concluindo,
se Pessoa fez ou não fez parte
de Ordens Ocultas, deixo as palavras do próprio
poeta sobre esse tema: "NÃO PERTENÇO
A ORDEM INICIÁTICA NENHUMA". Isso Fernando
Pessoa disse em 14 de Janeiro de 1935, ano de seu falecimento.
Aos que realmente
se interessam sobre o assunto e que não se
deixam levar pelo enlevo do boato, pedimos que confiram
esta informação, que se
encontra no opúsculo "Das Origens e da
Essência da Maçonaria, e do seu Contributo
Judaico", que reúne dois textos de Pessoa
sobre o assunto Maçonaria, publicado por Princípio
Editora, 1993.
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