O
Bem, o Mal & a Lição da Pedra Bruta
Nota Editorial:
Este Artigo foi publicado na Revista Sexto Sentido
nº 48, da Mythos Editora. Clique na imagem
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Sexto Sentido, no Site da Mythos Editora. |
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por Carlos Raposo
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"All in all you're
just another brick in the wall."
(Pink Floyd, The Wall)
A primeira imagem
com a qual, ao entrar para a Ordem, o Aprendiz Maçom
toma contato, sob um ponto de vista, sintetiza boa
parte (senão todos)
dos símbolos pertinentes a seu presente estágio
e, sob outro aspecto, ela traz, em si própria,
a indicação do trabalho que começou
a ser realizado por aquele que iniciou o seu longo
aprendizado.
Descrevendo-a, rapidamente, a imagem apresenta
um jovem olhando em direção a um bloco
disforme de pedra. Este jovem, provavelmente um pedreiro
ou um escultor, traz consigo os instrumentos de seu
ofício: um Malho e um Cinzel. Em uma primeira
vista, de imediato, notamos que, pelo menos, os já citados
quatro elementos básicos da imagem, saltam
aos nossos olhos. Repetindo-os, são eles o
próprio Pedreiro, o Malho, o Cinzel e a
Pedra Bruta.
Para podermos iniciar nossa rápida exposição
tanto sobre esses elementos, quanto sobre o conjunto
em si que a imagem, como um todo, representa, é necessário
que voltemos um pouco no tempo para nos lembrar da época
em que a, assim chamada, Maçonaria, hoje
especulativa, era considerada operativa.
Naquele tempo, aos poucos, com a evolução
da arte de se construir, o material utilizado nas
edificações passaria de madeira para
a pedra e, depois, da pedra para a pedra trabalhada.
As construções, assim, iam se tornando
mais sólidas e belas. O trabalho na pedra
bruta visava, principalmente, preparar um conjunto
de peças para que essas se moldassem e se
encaixassem em um todo maior de pedras, e que todas
estivessem em conformidade com o projeto dos "construtores".
No campo operativo, boa parte do trabalho de lapidação
executado pelos novos Pedreiros, era feito com o
uso de, entre tantos outros materiais, três
elementos básicos: a Pedra em si, o Martelo
(ou Malho) e o Prego (ou Cinzel).
Talvez como efeito do avanço industrial, quando
a máquina começava a substituir a mão
de obra humana, por volta da segunda década
do século XVIII, a Maçonaria passaria
a ser considerada de ordem especulativa. Assim, boa
parte dos componentes materiais, até então
utilizados no ofício e na arte da construção,
passariam a compor símbolos, cuja natureza,
ainda associada às edificações,
agora também estariam relacionados a aspectos
internos ao ser humano, sejam esses aspectos de ordem
moral, sejam de ordem espiritual. Desta forma, o
que antes era visto como a preparação
para se produzir peças perfeitas, agora ganhava
os contornos de símbolos que visavam a edificação
do verdadeiro homem. Para tal, assim como acontecia
com os blocos de pedra bruta, o próprio homem
necessitaria ser trabalhado, ou lapidado, para que
sua perfeição enfim se mostrasse.
Na já citada imagem do Grau de Aprendiz, vemos
o jovem pedreiro trabalhando a pedra bruta. Para
a realização deste trabalho ele emprega
o Cinzel e o Malho. O Malho encontra-se em sua mão
direita, enquanto que o Cinzel está na esquerda.
Comparando a pedra com o homem, é mostrado
que ela, em seu estado bruto, encontra-se disforme,
distante de um possível estado de perfeição,
que, mais tarde será representado pela Pedra
Cúbica; igualmente, este trabalho de lapidação
poderá ocorrer com o próprio ser
humano.
Ora se identificando com a Pedra, ora com o Pedreiro,
o Aprendiz terá todos os elementos necessários
para trabalhar a si próprio. Estes elementos
estão representados pelos já mencionados
Malho e Cinzel.
Alguns autores relacionam, superficialmente, o
Malho ao elemento ativo da obra de desbaste da
Pedra Bruta, enquanto que o Cinzel seria o elemento
passivo. O primeiro estaria associado à força
e ao intelecto, enquanto que o segundo diria respeito
a arte de esculpir propriamente dita. Em uma análise
um pouco mais criteriosa, o Malho seguro pela mão
direita, é entendido como sendo um símbolo
da ação pura da vontade do Aprendiz,
atuando com perseverança e continuidade sobre
a Pedra, enquanto o Cinzel é visto como a
capacidade de orientação e observação,
a capacidade de saber discernir o que se deve ou
não ser retirado do bloco em trabalho. Sob
o ponto de vista iniciático, Malho e Cinzel
podem ser percebidos, respectivamente, um como a
Tradição que prepara e o outro como
a Revelação que cria. Um é inútil
sem o outro, e eles atuam em conformidade com o Princípio
Hermético da Polaridade, que diz que "tudo é duplo".
Se uma forma de assimilação do símbolo
do Grau de Aprendiz o mostra trabalhando a Pedra
Bruta, um outro entendimento, de ordem ainda superior,
nos fala que o Aprendiz, sendo a própria Pedra
a ser desbastada, "sofrerá" a ação
do Grande Escultor, que fará uso dos elementos
necessário à realização
da Obra final.
Mas qual seria a relação direta do
Bem e do Mal com a lição Pedra Bruta?
Estes dois conceitos, Bem e Mal, ocuparam, e certamente
continuarão ocupando, a mente de todos e quaisquer
estudantes das Ciências Antigas. Genericamente
tomados como conceitos absolutos, onde, primeiramente,
poderíamos simplesmente optar por um (normalmente
o Bem) e esquecer o outro, tais aspectos da criação
são de tamanha relatividade, que defini-los,
satisfatoriamente, pode parecer tarefa assaz dura,
senão francamente impossível. Assim,
nos limitaremos a dissertar de modo livre e sucinto
sobre os mesmos, sempre tendo em mente o símbolo
da Pedra Bruta, bem como nossa fé e confiança
no Grande Artesão.
Em princípio, quanto mais livre de conceitos
(sobremodo conceitos religiosos) preestabelecidos
estiver a mente de alguém, mais apto esta
mente estará para perceber os notáveis
equívocos, alguns seculares, com os quais
estamos obrigados a conviver. Por exemplo, tornou-se
uso comum associar Deus tão somente ao Bem,
relegando todos os aspectos supostamente vis da criação,
as "coisas" ruins, ao seu eterno opositor.
Desta forma, a perene luta Bem versus Mal, tendo
seu palco há muito armado, segue seu rumo
em direção ao eterno.
Somente como ilustração para este equívoco,
citamos um trecho, extraído dos códigos
de uma das crenças mais populares de nosso
país. Este trecho afirma, de modo claro, taxativo,
lapidar e final ser "...Deus, soberanamente
justo e bom...". A suposição de
que algo seja "justo e bom", mesmo muito
antes de poder ser considerada primária, deve
ser vista como realmente é, ou seja, ilógica,
até mesmo contraditória.
O Segundo Princípio elaborado por aquele Três
vezes Grande, o Princípio de Correspondência,
nos diz que "o que está em cima é como
o que está em baixo...". Seguindo a lógica
hermética, sabemos que, em tese, um Juiz,
quando emite uma sentença ou julga uma causa
humana, intenta nada mais ser senão Justo.
Ele não deseja ser nem Bom e nem Mau. Mas
apenas Justo. As demais partes envolvidas são
as que, segundo a conveniência de cada uma,
entendem ter sido o seu veredicto, a sentença,
Boa ou Má. Da mesma forma, seguindo o Princípio
Hermético das Correspondências, podemos
supor o mesmo a respeito do Grande Juiz, o Criador.
Se Ele é Justo, como o crêem todos, é apenas
Justo, e nunca Bom ou Mau, apenas Justo. Nós,
suas Criaturas, é que, dentro de nossa limitada
compreensão, entendemos serem as Suas ações
mera conseqüência de um possível
Bem ou Mal. E exatamente nisto, em Sua Justiça,
está a Sua Perfeição. Não é a
toa que os Maçons se utilizam do mote "Justo
e Perfeito" e nunca "Justo e Bom".
Seguindo o raciocínio sobre o Bem e o Mal,
no trabalho de lapidação da Pedra Bruta,
duas vontades parecem agir de modo concomitante:
a primeira vontade seguirá os desígnios
do Criador, que é soberana. A vontade secundária
partiria da própria Pedra, ou do indivíduo
a ser trabalhado, no caso, o Aprendiz. Em ambas possibilidades,
intenta-se obter o produto final na forma de uma
pedra Justa e Perfeita. Ela é Justa, pois
está adequada à Sua Obra e é Perfeita,
pois também está em conformidade com
a Perfeição de Seu Plano Maior.
O livre arbítrio que, em princípio,
parece dirigir a vontade do Aprendiz, nada mas é do
que a faculdade que lhe dá a chance de estar
em harmonia com a vontade maior que o criou. Nesse
caso, as duas vontades, sendo harmônicas, passam
a ser uma única Vontade. Então, poderíamos
entender o Bem como sendo a capacidade do Aprendiz
de pôr a própria vontade em sintonia
com a vontade Superior, enquanto o Mal simplesmente
representaria a opção contrária
a esta.
Um outro aspecto do símbolo, presente no processo
de tornar desbastada a pedra bruta, também
muito teria a acrescentar. Sob um certo ponto de
vista, a Pedra Bruta é entendida como um estado
original de liberdade, enquanto que a pedra trabalhada é vista
como sendo nada mais que o produto da submissão
de uma individualidade pela força. Mas por
hora, devido a densidade deste particular modo de
entendimento da lição da Pedra Brita,
não gostaria de me aprofundar nesse tema.
Para encerrar, diria apenas que cabe a cada um
de nós descobrir a sutil diferença entre
a perfeição da pedra trabalhada e a
submissão que o desbastar da pedra por vezes
representa. Não reconhecer tal diferença
pode nos levar a ser, simplesmente, um mero produto
de nosso meio, mais uma peça moldada a revelia
de nossa própria vontade, de nosso próprio
querer.
Enfim, talvez a diferença possa estar no fato
de que, enquanto uma traz em si mesma o objetivo
de toda Iniciação, ou seja, a fiel
expressão da vontade do conjunto Criador e
Criatura, constituindo uma verdadeira jóia única,
a outra não passará de um mero capricho
da manipulação profana, apenas mais
um tijolo na parede, fadado a nada mais senão
o esquecimento.
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