Lembranças
de um Neófito
por Carlos Raposo
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O Décimo Caminho chama-se Inteligência
Resplandecente,
porque é exaltado sobre todas as cabeças
e tem por assento o trono de Binah.
Ele ilumina os esplendores de todas as luzes,
fazendo emanar a influência do Príncipe
dos Rostos, o Anjo de Kether.
(texto Yetzirático para Malkuth)
Depois
de algumas horas de conversa, onde vários
temas aleatórios tinham sido abordados, finalmente,
aquele senhor que tanto fazia para se parecer um pouco
enigmático, abriu-me as portas da Ordem que,
segundo suas próprias palavras, era a verdadeira
escola de iniciação de acordo com a sagrada
tradição da Grande Fraternidade Branca
no Ocidente.
Hoje
não me recordo bem se eu fingi acreditar
nisso ou se realmente aceitei como verdade essa idéia.
De qualquer forma, confesso que nessa época,
igualmente a qualquer ocultista que até então
eu conhecia, o sonho de participar de ordens mágicas
onde augustas e pomposas iniciações fossem
realizadas era parte forte de meus anseios, o que me
leva a crer que, provavelmente, eu tenha posto de lado
meu senso crítico e tenha embarcado na história
daquele simpático senhor. Mesmo assim, posso
afirmar que meu espanto em encontrar alguém
cujo comportamento lembrava alguns personagens apenas
conhecidos de contos e lendas, era bem grande.
Nesses
dias, a Ciência Oculta era, pensava,
além de algo bem conhecido por mim, um fascínio
que provocava minha imaginação, conduzindo-me às
mais rocambolescas elucubrações de ordem
místicas ou esotéricas. Relativamente
versado nesses temas havia tantos anos, eu já estava
acostumado a me considerar um dos muitos humanos que,
devido tão somente a minha ação
em certas esferas ocultas, levava uma espécie
de vida dupla, onde o iniciado e o profano que moravam
em meu ser eram os únicos entes que compartilhavam
de certos segredos ocultos. Desta forma, ora eu estava
envolvido com os malditos afazeres normais de um profissional
de informática, ora perambulava entre os manuais
das sinistras doutrinas ancestrais, aventurando-me
em práticas que variavam entre complexos códigos
de programação e outros códigos,
nem tão complexos, é verdade, mas que
prometiam o contato com as sutis esferas do espírito.
Assim
eu ia oscilando, ora entre prontuários
de Cobol, ora entre grimórios de Enochiano; às
vezes programando em C++ e em outras ocasiões
tecendo conjuros de Goetia.
Mas
mesmo me sentindo uma espécie de super-herói,
onde minha verdadeira personalidade de iniciado estava
caprichosamente velada por minha existência normal,
sendo aquela totalmente oculta aos profanos que me
conheciam, em meu íntimo o desamparo de não
fazer parte de alguma “ordem” verdadeiramente
iniciática causava uma incômoda pena de
marginalidade oculta e, até pior, provocava
um desagradável sentimento de sentir-me como
se fosse uma espécie de órfão
místico.
Esse
sentimento de abandono espiritual é próprio
da busca em si. Quando o buscador se vê perdido
nas insensatas e infantis lembranças que ele
mesmo não sabe definir, mas que existem em um
forte apelo interior provocado pela saudade de algo
desconhecido por sua mente ordinária, ele mergulha
numa existência aparentemente vazia, que atormenta
a alma e confunde o intelecto. Se esse algo é real
ou não, às vezes ele nunca o saberá.
Por tal, é provável, ele se afogará em
superstições e nas infinitas suposições
do espírito, no propósito único
de preencher esse vazio; e mesmo quando o conhecimento
mundano lhe é amplamente favorável -
e aqui é impossível deixar de recordar
o drama do Fausto, de Goethe -, o buscador se vê atordoado
por sua existência, cego pela ignorância
e frágil como uma criança desamparada.
As
práticas mágicas ou se entregar à demanda
de tribos, clãs, fraternidades ou ordens que
dêem a sensação de conforto, colo
e abrigo são duas das conseqüências
diretas desse sentimento.
Assim ocorreu comigo.
E
mesmo considerando minha rápida passagem
- quatros anos recebendo monografias pelo correio -
em uma bem conhecida organização tida
como sendo Rosacruz, isso por si só não
fora suficiente para amenizar esse sentimento de desamparo,
o qual era para mim a inequívoca percepção
de ainda não ter encontrado o filão do
conhecimento oculto. Com o tempo, essa ordem apenas
se converteria em mais um ludíbrio que o
caminho nos obriga a conhecer. Quem sabe - pensava
- isso não
seja alguma espécie de teste providenciado pelos
mestres, no intuito de me apontarem o caminho correto.
Tentativa e erro? Que assim seja! Logo me pus fora
da referida ordem, coisa que até hoje não
me arrependo nem um pouco.
E
como a tradição não se apresentava,
eu ia me contentando com esse pouco, em conhecer, entrar
e sair de algumas organizações que prometiam
um conhecimento sagrado. Isso evitava que eu cometesse
o mesmo “erro” de meu Irmão Perdurabo
que, como indicado em seu nome mágico, teimou
em persistir até o fim dentro da primeira ordem
que o recebera. Tudo para constatar que ao final nada
havia para ser perdurado.
Mas é verdade que nessa altura a minha paciência
iniciática já estava por um fio, quase
totalmente acabada. Pensei em me afastar de vez desses
estudos, até que, enfim, encontrei essa outra
opção.
É verdade,
e não há pesar em
reconhecer isso, a proposta daquele senhor me pareceu
excelente, vindo num momento certo e crucial para o
ocultista que eu era, ou me considerava ser. Então,
o que obtive naquele momento foi, nada mais nada menos,
do que aquilo que eu realmente queria e já começava
a considerar quase impossível de se alcançar:
fazer parte de uma linha direta de iniciação.
E foi o que eu consegui, ou pelo menos o que eu pensei,
naquela época, ter logrado. Entretanto, antes
que quaisquer peculiaridades do novo sistema de magia
e da tradição fossem por mim assimilados,
admito, o reconhecimento de ser considerado, finalmente,
algum tipo de ocultista “oficial”, era
mais que reconfortante, era estimulante, já fazendo
a coisa toda ter valido a pena.
Tão logo aceito como Probacionista, iniciei
com afinco nas práticas e tarefas devidas a
esse estágio de aprendizado.
É certo: nada parece ser muito exigido de
aprendizes em início de carreira. Contudo, eu
- pensava - já tenho anos e mais anos de bagagem
místico-mágica, portanto - concluía
- não me deterei apenas em uma reles conduta
básica, pois já sei o bastante para me
orientar por mim mesmo. Enfim, como eu viria a compreender
bem mais tarde, meus anseios e meu comportamento estavam
em absoluta normalidade, exatamente conforme aquilo
esperado dos principiantes no estudo das artes ocultas.
Porém, repetindo, o que mais me fascinava
naquele instante era o fato de poder finalmente dizer: “sim,
eu faço parte de uma Ordem verdadeira”.
Neste
mesmo instante - embora eu não entendesse
o porquê disso - a curiosa definição
dada pelo genial Umberto Eco, para classificar o comportamento
daqueles que se envolvem com ocultismo, passava pela
minha mente, fazendo-me sentir o próprio "diabólico".
Mas eu tinha coisas mais importantes para tratar, é claro.
Deixei de lado o Eco o seu Pêndulo e parti para
as coisas mais importantes...
O
extenso currículo, todavia, recomendado
para os iniciantes estava muito além de parecer
fácil, pois consistia de dezenas de textos e
livros, propiciando aos novos estudantes um contato
com as principais formas de doutrinas místicas
e religiosas espalhadas pelo mundo. Considerei esse
ponto, o volume da instrução inicial,
algo muito favorável à Ordem, concluindo
que sua seriedade era logo colocada em evidência:
apenas os persistentes continuarão. Pela primeira
vez pude entender o porquê do mote de nosso Irmão
Perdurabo.
Meu
plano inicial de não me deter apenas na
conduta básica do Probacionista ficara inviabilizado
pelo excesso de informação a qual eu
teria que assimilar naquele estágio. Resignado,
por falta de tempo hábil, e sempre culpando
minhas atividades profanas pela interferência
em meus santos estudos, limitei-me ao currículo
da Ordem.
E
eu persisti, apesar do excesso de informação.
Vale
dizer que aquilo que na época eu considerei
um “excesso”, a ponto de achar inútil
e enfadonho, hoje o entendo não só como
válido, mas também como essencial, pois
sem essa bagagem, o ocultista correria o risco de estar
nivelado a um desses muitos magos ocasionais, dos quais
a superficialidade de nossa sociedade é ávida
por produzir.
Assim,
meu grande aprendizado tinha finalmente começado.
Sempre
recordando as origens de minha recém
adquirida linhagem mágica, subitamente percebi
que aquele desconfortável sentimento de me considerar
um órfão espiritual tinha desaparecido! “Apenas
uma conseqüência de um pueril consolo psicológico”,
dizia meu senso crítico; “Bobagem! Agora
você está de fato fazendo parte de uma
clara linha de sucessão iniciática e
espiritual! Hoje em dia, mesmo sendo um aprendiz, você é um
iniciado!”, apelava meu lado místico,
num desigual jogo de vaidades, afogando a voz do anjo
mau da autocrítica, fazendo me sentir mais do
que nunca um perfeito super-herói, com sindicato
e tudo, inflado em uma cômoda importância,
alimentando uma auto-imagem que aos poucos tomava conta
de meu próprio ser.
Tomei
conhecimento da literatura e certos ideais de Nietzsche,
sobremodo sua atitude anticristã e
seu modelo de super homem. É claro que para
tal filosofia, e isso é mais que certo, eu não
estava preparado, em hipótese alguma. Elas,
porém, dão à mente em formação
uma poderosa ilusão de auto-suficiência
simplista, fazendo-a crer nas mais absurdas sandices.
Infelizmente, esse e outros tantos filósofos
e pensadores, nas mãos de imaturos jovens, ficam
reduzidos a uma coletânea de jargões,
cujo único propósito é “medir
forças” ou avacalhar com os argumentos
dos mais velhos; eles são mudados em meras cartas,
ou dardos, a serem lançadas do modo mais irresponsável
possível, quando de uma conversa ou discussão,
apenas para causar efeito. Contudo, logo a gente
aprende que a boa filosofia não pode ser comparada
a um lúdico vídeo game.
Curiosamente,
de mãos dadas à enérgica
idéia filosófica do super homem de Nietzsche,
a imagem do superman, naquele momento, ocorria em minha
mente. Mas, bem antes de lembrar os poderes do famoso
personagem dos comics, ela apenas lembrava a pueril
diferença entre o herói e o jornalista
boboca: os óculos! E embora eu ainda não
estivesse dando importância para aquilo que era
dito pela impiedosa voz de minha consciência,
foi inevitável fazer a comparação
entre os óculos do homem de aço e o ridículo
véu assumido por aqueles que pensam poderem
estar escondidos sob o bobo rótulo “iniciado”,
impedindo seu reconhecimento por parte da plebe profana.
Pois é. E da mesma forma que só o elenco
do superman não “sabe” que por detrás
dos óculos do jornalista boboca está o
invulnerável super-herói, apenas aqueles
poucos que se encontram envolvidos pelas mesmas ilusões
compartilhadas pelo “iniciado”, o reconhecem
como tal.
Porém
nada disso importava naquele momento.
E
enquanto eu progredia em meus estudos, de vez em
quando acompanhado por algumas dicas daquele senhor,
que agora era solenemente tratado como instrutor, o
sentimento de importância do tipo “sou
alguém nesse mundo”, falava cada vez mais
forte em mim, a ponto de meu comportamento mudar.
Vi
minhas palavras adquirirem um tom mais severo e grave,
e meu olhar, sempre buscando informações
ocultas em tudo que via e em todos que encontrava,
era inclusive temido pelos olhos “profanos”.
E eu me sentindo muito bem com isso, é claro.
Aos
poucos conheci outros tantos que tinham enveredado
pelo mesmo caminho. Isso deveria não ser possível
na Ordem, pois era dito em uma de suas primeiras instruções
que nela nós só conheceríamos
o nosso Instrutor e aqueles que porventura ingressassem
na Ordem por nosso intermédio. Mesmo assim,
a quantidade de gente que se apresentava como membro
da mesma Ordem era grande, um número quase assustador
para algo tido como secreto.
Além disso, uma curiosa característica
parecia estar presente em todas essas pessoas: ninguém
reconhecia ninguém como iniciado! Isso realmente
me espantou no início. Cheguei a pensar que
essa atitude poderia ser algum tipo de jogo ou brincadeira
que se fazia com os novatos, para confundi-los ou aprontá-los
para outras instruções, agora sábias;
ou mesmo que fosse uma espécie de pilhéria
rosacruz, parodiando e contradizendo o dogma que diz “os
rosacruzes se reconhecem mutuamente”, para dizer
que “os iniciados de nossa Ordem se estranham
mutuamente”, ou sei lá mais o que.
Todavia
a simples verdade era, como qualquer verdade, bem
simples: cada um dos membros dessa “minha” Ordem,
dando asas e vida a um obscuro desejo oculto de soberania
e poder, julgava-se no direito de tê-la só para
si próprio, não admitindo que qualquer “irmão” ousasse
fazer de sua voz uma expressão da Ordem propriamente
dita. Um comportamento tão estranho quanto peculiar,
que eu não entendia. Mas o que eu viria a aprender
com isso logo seria confirmado pelo tempo, quando certo
aspecto da iniciação, que muitos não
superam, ficaria claro para mim: o estigma do louco
de Tiro.
Apesar
dessas observações não
muito boas, eu continuava progredindo rapidamente em
meus estudos. Como se esse meu avanço não
tivesse nenhuma importância, o sol, demonstrando
sua completa ignorância quanto ao meu progresso
e valor, não alterou a sua jornada em um centímetro
sequer, galgando signo após signo, até que,
encerrado um ano de trajetória, novamente estava
no mesmo signo no qual eu tinha sido admitido, um ano
atrás, ao estágio inicial de provação à Ordem.
Fui
então chamado por meu Instrutor que, mostrando-se
satisfeito com a minha dedicação,
disse-me que finalmente eu, após aquele período
de estudo, seria admitido ao primeiro grau da jornada.
Então, repetindo as palavras de meu instrutor, “depois
do primeiro ciclo de Abraxas”, eu estava pronto
para o primeiro estágio da Ordem.
É claro
que, por mais ilustrado que eu estivesse naquela época,
esta declaração “ciclo
de Abraxas”, ativou-me a curiosidade, pois nunca
havia escutado tal referência. Algumas semanas
após, depois de ver e rever em vários
livros, meus conceitos ocultos e não obter nenhum
esclarecimento, desisti de tentar compreender por mim
mesmo o que significava o tal “ciclo de Abraxas” e
decidi ir pelo caminho mais curto para seu entendimento,
ou seja, perguntar diretamente a meu instrutor.
Muito
interessado, afinal, o estudo de Abraxas era de vital
importância para a compreensão
dos ensinamentos sob a ótica gnóstica,
quis saber o significado de tamanho mistério.
Seria algum tipo de status dentro da Ordem? Estaríamos
sendo supervisionado por Abraxas, ele mesmo? Seria
esse Abraxas uma espécie de Deus Oculto e de
extrema importância na Ordem? Algum ritual seria
necessário para invocá-lo e, por fim,
compreendê-lo? Era o oculto Mote mágico
de algum Irmão misterioso que estaria me acompanhando
e, secretamente, supervisionando o meu desenvolvimento?
Ou melhor, seria este enigma mais um ordálio,
cujo propósito era testar meu conhecimento?
Nesse caso o mistério deveria ser mantido até que
eu o resolvesse! Isso realmente excitava meu cérebro
cabalístico. As hipóteses fervilhavam
em minha ávida mente de ocultista...
Abraxas é uma divindade relacionada ao Sol
sendo 365 o seu valor numérico, segundo os bem
conhecidos procedimentos de Gematria, logo lembrando
o número de dias do ano. Além disso,
de acordo com uma versão do Sepher Sephitoth,
365 é o valor para a expressão “Terra
de Tiphareth” em hebraico, novamente lembrando
a relação dos elementos terra e fogo
e dos “planetas” Terra e Sol: ora, em 365
dias a Terra completa uma volta ao redor do Sol. Assim,
um ciclo de Abraxas era apenas um simples jargão
para se dizer “um ano de estudos”, e nada
mais.
Confesso
que essa desinteressante explanação,
dada de modo igualmente desinteressado por meu orientador
na Ordem, pegou-me de surpresa. Só isso? Ela
era simplesmente decepcionante, quase ridícula.
Mas era só isso mesmo. Fazer o que?
O
pior mesmo foi concluir que decepcionante mesmo tinha
sido o efeito de minha tola expectativa a respeito
do tema, e não o tema em si. Deduzir que a natureza
dos “mistérios” está, em
sua grande parte, tão oculta quanto maior for
a estéril elucubração de nossa
mente a respeito deles, não foi tarefa difícil.
Difícil foi aceitar essa conclusão.
Bem, é melhor deixar esse assunto de lado.
Esqueçamos o Abraxas e o seu ciclo e voltemos
a minha admissão ao Primeiro Grau da Ordem.
“Você chegou ao Reino, agora você é um
Neófito de nossa Santa Ordem”, foi a quase
solene conclusão de sua avaliação,
a partir de meu Diário Mágico, de meu
ano de estudo e práticas, ou do meu “ciclo
de Abraxas”.
Umas
das principais formas de avaliação
dos postulantes que está ao alcance dos instrutores é o
exame dos Diários Mágicos.
Não é muito difícil entender
o que vem a ser um Diário Mágico. Ele é exatamente
o que diz sua definição conceitual, ou
seja, um caderno onde são anotados as práticas,
impressões e resultados, ou o que quer que seja
considerado pertinente pelo estudante. Assim, bem aos
poucos, toda a evolução do pensamento
e da dedicação do aprendiz fica registrada,
possibilitando ao Instrutor tomar conhecimento do avanço
de seu candidato e, por fim, fazer a sua avaliação.
O
mais relevante na prática de se construir
um Diário Mágico, porém, é permitir
ao próprio aprendiz, uma constante auto-avaliação.
Ele provavelmente será o único registro
físico de seu avanço durante sua existência
e isso será de vital importância bem mais
tarde para o Adepto que um dia o aprendiz se tornará,
pois durante as futuras práticas da “memória
mágica”, o então Adepto poderá finalmente
intuir que todo o encadeamento de fatos de sua vida
mágica já estava, há muito tempo,
traçado por sua velada vontade, de uma forma
clara e lógica.
Esse é um fundamental passo em direção
a cerimônia maior de um novo estágio de
aprendizado, a visão e o conhecimento do Sagrado
Anjo Guardião. Feito isso, ele estará a
um instante da identificação de sua Vontade
Verdadeira.
Mas
estávamos falando de minha admissão
ao Grau de Neófito, a chegada ao Reino.
E
lá vem um código novamente! Outra
expressão curiosa indica que o iniciado está no
Grau de Neófito: é dito que ele chegou
ao Reino. Mas que Reino seria esse?
Antes
que qualquer imagem distorcida do real sentido dessa
expressão pudesse ocupar minha mente,
causando certa ansiedade e mal entendidos como no caso
do tal “ciclo de Abraxas”, procurei rapidamente
entender o que isso me dizia. Tentei rechaçar
aquelas terríveis conjecturas místicas,
mas, mesmo assim, não consegui evitar que certas
caricatas idéias arquetípicas do tipo “Reino
do Bem e Luz” ou ainda “Reino do Mal e
Trevas” - herança atávica cristã falando, é certo
- passassem pelas janelas de minha mente. Mas agora
eu estava um pouco mais cuidadoso.
Felizmente
essa foi fácil de se entender,
pois “Reino” nada mais é que o indicativo
para o termo equivalente em hebraico, Malkuth, a primeira
esfera da Árvore da Vida, ou a sua primeira
Sephira.
Desde
o século XVIII muitas ordens têm
se utilizado do arranjo cabalístico da Árvore
da Vida como representação básica
e estrutura na qual todo um sistema de evolução
iniciática à ordem em si é montado.
Nossa Santa Ordem, que se gabava por sua originalidade,
pelo menos nesse ponto não escaparia do manjado
padrão ortodoxo de estruturalização
de ordens iniciáticas. Enfim, para o entendimento
do Grau de Neófito, o iniciado deve estar ciente
do maior número possível de símbolos
associados a Malkuth, ou a Esfera que representa esta
parte do aprendizado, o Primeiro Grau.
Sim,
o Primeiro Grau! Só então entendi
que antes, como Probacionista, eu não fazia
parte de Ordem alguma, mas estava do lado de fora,
em uma espécie de aprendizado vigiado, ou em
teste, como o próprio nome “provação” indica.
Eu era apenas um apêndice, e não sabia...
Bem,
pelo menos agora, afinal, eu estava certo que, sendo
um Neófito, eu pertencia de fato a Ordem.
Tudo bem então. Apenas uma irritante e cínica
voz interior me incomodava, zombando das minhas arrogantes
presunções e certezas, quando de meu
estágio de provação, onde eu achava
que era alguém apenas por “pertencer” a
uma Ordem secreta. Pareceu-me que o verdadeiro aprendizado
tinha de fato começado com essa lição,
não pelo estudo propriamente dito, ao qual tanto
me dedicara, e sim pelo maçante sussurro da
livre voz de minha consciência a respeito de
mim mesmo.
Aos poucos tudo foi mudando.
Expandir
a Ordem é umas das tarefas que o
Neófito assume. Essa tarefa, todavia, não é imposta
como uma condição essencial, nem exposta
com a devida clareza. Antes, ela está implícita
em uma outra prática, a de assumir novos Probacionistas.
Em
princípio isso parece enfadonho, contudo,
o passar do tempo torna o gosto de se ter estudantes
sob tutela por demais agradável para ser ignorado.
Tão logo o Neófito comece a aceitar novos
Probacionistas, seu sentimento de importância,
então um pouco massacrado por certos atropelos
e pelo desvelar de aspectos sombrios da sua natureza, é renovado
pela impressão do mestre que ele agora pensa
ser. Não é raro encontrarmos Neófitos
que, esquecendo que ainda estão no Grau inicial
da Ordem, posam de grandes mestres.
A
conclusão na qual chegam aqueles que passam
por esse processo diz que todos precisam sentir isso,
afinal as lições impostas pelos ludíbrios
e erros parecem sempre mais fortes que aquelas oriundas
das dádivas. Elas marcam definitivamente o caráter
do Mago que está por nascer como algo que deverá ser
lembrado durante os tempos que mais tarde virão.
E se é certo que existe a necessidade de aprendizado
pelo erro, antes um erro durante a infância,
onde nossas responsabilidades são poucas, que
errar quando adulto, quando as conseqüências
certamente serão maiores. Se um Neófito
erra, ele certamente sofrerá com isso, e talvez
alguns estudantes também; mas as conseqüências
de um Erro de um Magus, quando toda uma Era o tem como
arauto, não podem ser medidos. E se um Neófito
está em Malkuth, apenas um Reino sofrerá dano;
todavia, um Mago, cuja residência é Hokhmah,
pode fazer com que um inteiro Universo seja afetado.
Aos
poucos o Neófito aprende que a relação
dele com os Probacionistas é muito mais que
somente orientar. Lembrando mais uma forma simbiótica
de convívio, os aprendizes, enquanto são
orientados pelo Neófito, o ensinam e o fazem
entender as questões de sua própria consciência.
Na verdade, para ele, estar como orientador de Probacionistas é uma
das formas mais intensas de aprendizado que o Caminho
em si proporciona.
Ao
mesmo tempo sutil e drástica, esta forma
de aprendizado é essencial para o Neófito.
Ela é sutil, pois é quase um processo
imperceptível de acúmulo de experiências
e exposição de vaidades, onde sua verdadeira
natureza vai sendo desvelada para que aos poucos exceda
os limites impostos por sua presente consciência.
Mas ela é também drástica, pois
da mesma forma como o nível das águas
de uma represa, apenas quando elas transbordam é que
se conhece a força daquilo que estava oculto.
Concomitantemente,
somente quando o Neófito
sente que os limites de seu saber, ou de sua consciência,
estão saturados, passando a se tornar a própria
causa que impede o seu avanço, é que
ele terá a chance de escapar dos grilhões
que o seguram. Normalmente isso ocorre de modo drástico,
lembrando o estouro de uma enorme barreira, quando
toda água represada avança destruindo
o que encontra pela frente.
Talvez
por isso não seja raro encontrarmos
Neófitos em profundos tormentos, beirando a
colapsos e a insanidade. Mas eles devem passar por
este ordálio.
E
para cada Probacionista que é aceito, percebe-se
a atitude da Providência em fornecer ao Instrutor
o instrumento através do qual certas pequenas
verdades necessariamente virão à luz.
Embora
seja evidente a impossibilidade de se prever com
segurança para onde rumará o Neófito,
duas conseqüências básicas podem
aparecer como padrão após a crise devida
a esse estágio de aprendizado.
A
primeira hipótese resulta em sua total prisão.
Afinal, avareza e inércia são os vícios
atribuídos ao Reino. Quando o pressuposto auto-conhecimento
apenas forneceu meios para a edificação
de uma rígida estrutura de ego, tornando impossível
ao Neófito romper as naturais barreiras de sua
consciência para a obtenção do
verdadeiro logro do aprendiz que ele ainda é,
diz-se que ele falhou. Aqui, preso na egocêntrica
armadilha do Reino (Malkuth), o aprendiz passa a se
considerar não só um verdadeiro mestre,
como também se julga o único capacitado
a tal.
Muitos
enveredem por esse cruel e negro labirinto. Nesses
casos, o já citado estigma do Louco de Tiro faz-se
valer. Tiro era um famoso porto da antiga Fenícia,
célebre por ser a principal via de comércio
da época. Conta-nos sua lenda que ali viveu
um louco que passava o tempo todo gritando com os muitos
navios que lá atracavam. Segundo o louco, todos
os navios que entravam e saiam do porto de Tiro eram
seus e de ninguém mais. Eles ali só estavam
por expressa ordem sua, entrando e saindo porque esta
era a sua vontade. É claro que ninguém
dava atenção ao infeliz louco que despendeu
toda sua vida dando ordens a seus imaginários
pertences. O louco assim viveu, sem nada possuir, julgando-se
dono de tudo. Sem nunca ter sido ouvido, morreu esquecido
e o porto, como se o louco nunca tivesse existido,
continuou ali, com seus milhares de barcos, entrando
e saindo conforme a vontade de seus verdadeiros donos.
No
caminho iniciático não é difícil
encontrar os que se comportam da mesma forma, considerando-se únicos
e soberanos, rechaçando todos os demais que
ousem estar na mesma via. Mas, como no exemplo do Louco
de Tiro, eles falam sozinhos, nada representam e, por
fim, são esquecidos completamente. A Ordem,
entretanto, continua, da mesma forma que os barcos
continuaram aportando em Tiro, independente da loucura
de alguns de seus temporários membros.
A
segunda conseqüência mostra, em princípio,
um Aprendiz em crise, a ponto de se retirar da Senda.
Aos poucos, entretanto, ele começa a perceber
que a aparente perda de parâmetros e certezas
apenas é uma indução direta do
enorme aumento das perspectivas que outrora eram consideradas
como sendo sua final realidade. A visão de si é agora,
mesmo sem a ansiada compreensão, mais vasta;
seu horizonte, ainda sem entendê-lo por completo, é mais
amplo; o próprio universo assume aspectos totalmente
desconhecidos a ele. Concluindo que sua jornada tem
ali um recomeço, ele readquiri forças
e continua seu passo, com um maior nível de
consciência. Saber descriminar é a virtude
primeira do Reino e é um passo em direção
ao nível subsequente, o Fundamento.
O
Neófito que supera as provações
de seu grau conseguiu, finalmente, tomar consciência
da existência de todos os elementos pertencentes
a Esfera do Reino. Todos a sua vez - terra, água,
ar e fogo - são postos em evidência, visando
o perfeito equilíbrio que se dará quando
do Adeptado, na Esfera do Sol. Todavia em Malkuth,
o Reino, esses elementos são os mistérios
a serem entendidos, compondo a Esfinge e seu enigma,
a mesma Esfinge devoradora dos homens que não
a decifram. Não é por outro motivo que
a Esfinge é uma das tradicionais figuras associadas
a essa Esfera da Senda.
Desde
que é dito pelos Mestres da Senda, que
logo no início do caminho o aprendiz demonstra
sua inclinação para ser um Escravo do
Abismo ou um Mestre de Templo, não será difícil
para um orientador devidamente qualificado prever um óbvio
futuro ao seu instruído. Geralmente essas duas
conseqüências apresentadas são a
regra, mas, é claro, não são a
totalidade dos casos.
A
sabedoria dos Antigos vem pacientemente nos lembrar
a existência de mil religiões para cada
milhar de monges. Nos resta esperar que cada um cumpra
os desígnios de sua própria vontade.
Porém, quando fui recebido na Ordem, não
era de se esperar que esses conceitos existissem em
minha mente. Pelo contrário, eu não fazia
a mínima idéia do que iria acontecer.
Apenas algo parecido com uma euforia controlada, uma
excitação pueril, ocupava meu pensamento.
A Ordem, contudo, necessita crescer e os Neófitos,
conscientes ou não disso, agem de acordo com
este querer.
Enfim,
não contrariando a necessidade de crescimento
da Ordem, tão logo assumi o Grau de Neófito,
prontamente alguns Probacionistas ficaram sob a minha
tutela.
Confesso
que a experiência é ótima.
Mas hoje sei que ela só é ótima
porque nos mostra, de modo inapelável, aquilo
que nós mesmos somos.
Minha
avaliação dessa fase de aprendizado,
aparentemente, excluía grande parte dos Probacionistas
que, uma vez tendo sido admitidos ao Grau de Provação,
nada mais fizeram para o próprio desenvolvimento
dentro do Sistema de nossa Ordem que assinar um Juramento
e receber as instruções preliminares.
Isso por si só nada significa. Mas não
chega a ser um fato surpreendente a grande quantidade
de Probacionistas que simplesmente abandona a jornada
logo no seu início. Apenas bem mais tarde, pude
identificar mesmo em cada um desses, uma sábia
lição da Providência, que na época
eu não fora capaz de perceber.
Porém, seguindo com aqueles Probacionistas
que se mantinham firmes no estudo e nas práticas
pertinentes, mais uma vez fui avançando em meu
novo status dentro da Ordem.
Por
esta hora eu já estava um pouco mais alerta
contra o enleve provocado pelas conquistas dos assuntos
místicos. Contudo, eu deveria saber que para
cada degrau conquistado, outro certamente estaria por
vir; e a cada dádiva oriunda do avanço
na senda, uma provação a mais também
chegaria.
Esta
seria uma outra lição a ser aprendida.
Contrariando
os princípios básicos
da Ordem, comecei a fazer reuniões, nas quais
um certo número de aprendizes participava. Detive-me
basicamente em demonstrar a doutrina mística
de nossa organização, apresentando, passo
a passo, as instruções a serem estudadas. “Ah!
Se no meu tempo isso tivesse ocorrido! Muitos erros
seriam evitados” - foi o inevitável pensamento
que me ocorreria após algumas reuniões.
Isso
me daria uma nova e incrível idéia:
já que tenho inteira responsabilidade pelas
reuniões, por que não formalizá-las
em uma estrutura? Na verdade o que logo passou a ser
meu intuito secreto era montar a minha própria
Ordem.
A
idéia era muito sedutora e começava
a deixar o meu cérebro em ebulição!
“Como
nunca ninguém pensou nisso?”,
perguntava-me, acreditando em minha notável
originalidade. É certo
que alguns, no passado, a partir de certos documentos
criptografados, encontrados de forma misteriosa, às
vezes suspeita, outras tantas forjadas, criaram Ordens
e tudo mais. Hoje, porém, a coisa é diferente!
Imediatamente,
várias hipóteses de
nomes para a minha Ordem brotaram de minha fértil
imaginação. Aquelas hipóteses
que possuíssem o nome “rosacruz”,
seriam de imediato rechaçadas, pois “já existem
muitas ordens assim”. “Ordem do Templo
alguma coisa”, era uma hipótese boa, mas
também muito vulgar, mesmo assim talvez eu ficasse
com essa. De qualquer forma, a minha Ordem seria original.
Incontáveis nomes mágicos pareciam fazer
de meu pensamento um parque de diversões; a
confusão era total e mil as possibilidades.
E
claro que um título especial deveria ser
criado para aquele que seria o chefe dessa nova ordem.
O título “Mago Supremo” era forte
candidato. Não, melhor seria latinizá-lo,
pois Magvs Svpremvs daria um élan todo especial,
apesar da minha desconfiança quanto a correta
tradução do título.
E
enquanto meu cérebro fervilhava com devaneios
bem típicos de um "diabólico", meu
senso crítico ficava cada vez mais sufocado.
Mas a Providência correu em meu auxílio,
felizmente.
Eu
costumava perambular pelo Centro do Rio de Janeiro,
na hora do almoço, em infindáveis caminhadas
meditativas, com algumas pausas, onde costumava me
exercitar na prática de vasculhar os Sebos de
Livros usados. Em uma dessas livrarias aconteceu algo
assaz inusitado.
No
Sebo, lá estava eu, debruçado sobre
as prateleiras repletas de uma poeira acumulada, Deus
sabe lá há quanto tempo, e teias já há muito
abandonadas por suas arquitetas. Como de costume, estava
em procura de algo novo, esperando que as graças
do céu me brindassem com algo raro e secreto
(quem sabe, cartas criptografadas, escondidas entre
as páginas de algum livro velho, muito velho!!).
Entretanto, no lugar do meu precioso achado qualquer,
eu escutei um “como vai amigo? Já faz
um bom tempo que nós não nos falamos!”.
Parei
de remexer os livros, afinal eu podia estar sendo
espiado pelo intruso, e olhei meio desconfiado -
nenhum iniciado gosta de ser reconhecido - para aquela
pessoa que falava. Não o reconheci de imediato,
pois ele estava com aquele tipo de gorro de inverno
(apesar do escaldante verão de 40o C do Centro
do Rio) que cobre toda a cabeça, deixando apenas
parte da face à mostra. Mas logo me lembrei
daquela já referida ordem rosacruz. Sim, eu
o conhecia de lá.
Meio sem jeito, respondi ao seu cumprimento. Ele
tinha sido um bom amigo, mas isso fazia um bom tempo.
Seguiu-se,
de imediato, aquela avalanche ansiosa de palavras,
ou uma pretensiosa conversa cheia de embromação,
daqueles papos bem comuns que acontecem em livrarias
de material esotérico. Cada um falou um pouco
de si, com as devidas reticências que sempre
devem estar presentes na fala de pessoas importantes
como nós, e logo um incômodo vazio se
fez.
Um
silêncio misterioso. Quando isso acontece, é porque
algo sério, muito sério, está para
ser dito.
Antes
que eu pudesse tossir, o meu amigo limpou a garganta
com um pigarro típico de quem vai se
pronunciar a uma platéia e disse: “Amigo,
gostaria de lhe dizer algo!”. “Pois não,
sinta-se a vontade”, foi minha polida resposta. “Estou
em contato direto com os Secretos Mestres do Espírito!”,
ele me disse em tom solene, olhando para os lados,
mantendo a devida discrição que a importância
de um momento como aquele requeria.
Então ele seguiu, dizendo que recebera uma
nobre missão, pois os mestres - liderados pelo
próprio Jesus Cristo - precisavam, e isso era
urgente, apresentar à humanidade seus conhecimentos
secretos, coisa que seria de vital importância
não só àqueles que estivessem
juntos com ele em sua empreitada santa, mas também
para todo o planeta. Na verdade a existência
de nossa Terra, quiçá de todo o universo,
estava em jogo e o tempo para se realizar aquele trabalho
era pouco. Ele, portanto - obviamente ele me confessou
que a idéia não lhe agradava, mas que
isso era necessário -, estava montando uma ordem,
onde os supremos mistérios da iniciação
seriam apresentados.
Enquanto
eu o observava, deixando de prestar atenção
as suas palavras, fiquei realmente espantado. Meu amigo,
percebendo meu assombro, tentou me tranqüilizar
dizendo que estava preparado para isso e que não
precisava me preocupar.
Ele
de fato percebeu meu susto, mas o interpretou de
modo errado, pois eu não estava assustado
com aquelas palavras em si. Porém, e isso me
deixou pasmo, o que me assustava era perceber claramente
a loucura estampada em seus olhos, em sua face e em
seu comportamento como um todo. Como é que alguém
poderia se iludir daquele modo?
O
pior, entretanto, era a forma dele se mostrar, como
se estivesse sendo conduzido por uma energia extremamente
daninha, que corrompia sua personalidade a ponto de
permitir que sinistros sentimentos de inferioridade
e recalques ficassem claramente a mostra. Enquanto
ele continuava a falar compulsivamente, entre um espasmo
nervoso e outro, sobre suas conquistas espirituais,
não pude deixar de perceber mais uma vez a loucura
estampada em sua contraída face.
Ele
agora estava tentando me convencer que eu deveria
acompanhá-lo em sua demanda. Eu até poderia,
devido as cores que ele identificava em minha aura,
e – claro - caso os Mestres Secretos permitissem
essa sublime graça, ser o segundo da escala
hierárquica...
Pensei
em sacudi-lo, alertá-lo ou mesmo tentar,
logicamente, fazer com que entendesse que a coisa não
devia ser assim tão grave. Afinal ele era meu
amigo, ou tinha sido há tempos atrás.
Mas, sinceramente, temi as conseqüências
que essa minha tentativa pudesse gerar. Todavia, resolvi
mudar a abordagem e, através de uma escandalosa
e patética mentira, tentei por um fim estratégico
para aquele também patético vaticínio.
“Espere!”,
disse eu em tom grave, “entendo
perfeitamente a sua posição, e dela compartilho.
Porém, meu Irmão, nós sabemos
que nossos caminhos são distintos. Os Mestres
já tinham me avisado da sua missão, a
qual eu respeito, admiro e invejo. Eles, porém,
o escolheram, e não a mim, pelas razões óbvias,
que você deve saber quais são. No meu
caso, eu ainda tenho muito o que aprender e não
estou a sua altura, pois não sou um mestre.
Mas haverá um dia que nós nos encontraremos
novamente, para o bem de toda a humanidade. Resta-me,
por agora, ser resignado e esperar que esse dia ocorra
em breve!”.
Foi
a coisa mais absurda que eu já dissera
em toda a minha vida, é verdade, e quase me
provoca uma crise de risos. Mas é que, naquele
momento, nenhuma outra coisa me ocorreu para enfrentar
aquela estúpida situação: eu estava
sendo escolhido por um lunático, e por seus
Mestres, para salvar o mundo...
E
o meu amigo, coitado, acreditou em minhas palavras,
agradeceu a atenção, deu-me um abraço
comovido e se despediu, não sem antes elogiar
minha humildade, resignação e minha sábia
atitude de aprendiz; além, é claro, de
me abençoar em nome dos Mestres Secretos.
Agora
eu esperava que ele dissesse “que a Força
esteja com você”, mas ele apenas saiu,
resoluto, inflado em importância, dizendo que
havia pouco tempo e muito trabalho a ser feito.
E
lá se ia aquele Dom Quixote dos dias de
hoje, peito estufado por uma convicção
vaticina, atacando seus moinhos da maldade, imaginários
como seus Mestres.
Eu, entretanto,
perdi a vontade de rir e fiquei realmente arrasado.
E não só pelo fato de encontrar um
amigo naquelas condições, mas, principalmente,
por identificar várias facetas de minhas atitudes
com a loucura que ele apresentava. Isso era realmente
uma chatice desconcertante.
Eu
estava certo em pensar que em meio a toda aquela
poeira da antiga livraria iria encontrar algum ensinamento
velado. Ele, entretanto, veio a mim pela atitude de
um antigo amigo de estrada, através de sua doidice.
Meus
planos de montar uma Ordem foram simplesmente destruídos
pela desagradável experiência
proporcionada pelo encontro daquele início de
tarde. Não mais haveria a “Ordem do Templo
alguma coisa”, muito menos o Magvs
Svpremvs.
Na verdade, como é que eu pude pensar numa coisa
dessas? Perguntava-me irritado.
Desfiz
o meu grupo de estudos, dizendo que “aquela
fase de aprendizado tinha acabado”. Mas mantive
o contato com todos eles, via correspondência.
E
lá estava eu novamente, desiludido e tristonho,
meio calado e pensando se todo o esforço para
aprender a ciência arcana não passava
de um mero e inútil jogo de vaidades.
Resolvi
expor minhas dúvidas a meu instrutor,
que pareceu se divertir bastante as minhas custas.
Mas ele disse o que eu precisava ouvir.
Meditei
muito sobre o que aconteceu, sobre meus intuitos
e propósitos. Concluí que se algo estava
errado, isso não era devido ao sistema em si,
nem a culpa era de minha vida profana, muito menos
de meu amigo maluco que queria montar uma ordem com
o patrocínio de Jesus Cristo, e nem pelos atropelos
aos quais eu tinha sido vítima. Parece que o
caminho iniciático era assim mesmo, cheio de
desilusões e perdas.
Os
grandes escultores quando olham um bloco maciço
de pedra, dentro dele já vislumbram a escultura
que está por nascer. E mesmo ainda não
sendo real aos olhos do vulgo, para o artista ela já existe.
E isso porque na sua mente, as estátuas já têm
figura definida, ainda que “dentro” da
forma bruta do bloco inteiro de pedra. O trabalho do
artista não é esculpir, propriamente,
mas retirar o excesso de pedra, eliminando o desnecessário
que impede que a estátua também seja
vista por outros olhos.
Aos
poucos, bem aos poucos, na Senda da Iniciação,
nossa natureza vai sendo desvelada pela contínua
perda daquilo que nos é supérfluo. Não é necessário
lamentar uma desilusão do caminho, do mesmo
modo que o artista não chora à pedra
retirada do bloco inteiro.
Quanto
ao Reino, ou ao grau de Neófito, o
mesmo acontece. As primeiras perdas, embora lamentadas,
são o excesso retirado pelas mãos do
Grande Artífice. É parte do supérfluo
que nossa vida acumulou como ego.
Uma
das maiores realizações espirituais
que um Neófito pode pretender é a visão
de seu Sagrado Anjo Guardião. Esta visão,
contudo, mesmo podendo ser de grande beleza para aquele
momento, não costuma ser nítida, pois
os véus que ainda estão entre esses dois
pólos obscurecem e distorcem sua realidade maior.
O avanço, entretanto, no Caminho do Conhecimento
faz com que esses véus sejam removidos, um por
um, até que toda majestade da visão do
Anjo seja perfeita. O último véu a ser
removido é tão somente tudo aquilo que
separa o Adepto de Seu Anjo. Uma vez removido, seu
Conhecimento é, então, a perfeição
pela qual ele tanto trabalhou.
E
não seriam esses véus análogos
ao excesso de pedra que impede os olhos do vulgo de
vislumbrarem a estátua dentro do bloco maciço?
Aos poucos, pedra após pedra, véu após
véu, o que está sendo retirado vai expondo,
finalmente, sua beleza.
Não seria, então, de todo errado dizer
que a grande dádiva oculta está condicionada à capacidade
do Adepto de se livrar daquilo que ele possui e que é desnecessário,
e não em obter um algo mais. Sim, as conquistas
podem representar uma indesejada acomodação
espiritual.
Isso
nos lembra uma outra imagem associada à Esfera
de Malkuth, o Reino: ela nos mostra uma jovem mulher,
coroada e sentada em um trono. Se, por um lado, esta
efígie oferece a soberania de um reino conquistado,
pelo outro, nos faz lembrar de um certo rito de iniciação,
onde o Candidato, após terem sido cumpridas
todas as suas provações, é convidado
para sentar-se em um trono, ricamente decorado. Dependendo
da reação do Candidato, o rito continuará ou
não.
Se
o Candidato entendê-los, tanto a coroa quanto
o trono, como meros logros materiais, provavelmente
dali ele nunca saia. Outrossim, toda nova conquista,
representa mais um degrau a ser ultrapassado. Nesse
sentido, o Trono da Esfera de Malkuth, apesar de ser
um passo obrigatório ao Iniciando, nunca deverá ser
seu descanso, pois nesse caso, representará estaticidade
e morte.
Isso é bem demonstrado pelas primeiras conquistas
do Candidato e a própria visão do Anjo
pode determinar a sua ruína.
Mesmo
com todas essas idéias em mente, eu
simplesmente não conseguia afastar a tristeza
e a decepção de algumas das revelações
que eu obtivera.
Agora
eu estava quieto, na varanda de minha casa de campo.
Meu cachimbo aceso e um pouco de fino conhaque, eram
meus únicos companheiros naquela noite.
Juntos, estávamos contemplando um magnífico
luar que já ia alto. A neblina, todavia, fazia
com que seu brilho se tornasse fosco, dificultando
a perfeita visão dos contornos da lua. O ar
frio da montanha e a ação dos meus companheiros
da noite iam, bem aos poucos, fazendo com que eu relaxasse,
deixando minha mente livre para qualquer pensamento
mais afoito que dela aflorasse.
Enquanto
chegava a nostalgia provocada pela lembrança
do meu primeiro encontro com aquele simpático
senhor que veio a ser o meu instrutor, todos os principais
pontos do meu aprendizado, dentro da Ordem, iam sendo
relembrados, como se eu estivesse com o olhar fixo
em algum ponto de um córrego qualquer, vendo
o contínuo movimento das águas.
O
contato com as primeiras instruções,
os exercícios e as práticas mágicas,
o yoga, ritos com pentagramas e hexagramas repassados
de memória e as quatro adorações
diárias, tudo provocava um sentimento estranho,
mas agradável. Meus
Probacionistas, o comportamento deles, ver que alguns
caíam nos mesmos erros que um dia foram
meus, também eram memórias agradáveis
de se ter. Será que eu havia perdido tudo aquilo?
Essa
questão me provocou uma rápida
tristeza. No entanto, um sentimento de alívio
eu começava a sentir.
Quando
alguns valores perdem a excessiva importância
que nele depositamos, parece que então passamos
a caminhar com maior leveza. Assim, alguns aspectos
deixaram de fazer parte de mim, como se nunca tivessem
habitado a casa de meus anseios. Aspectos do tipo estar
ou não fazendo parte de uma linha direta de
iniciação, fazer parte de ordens e outros
grupos de estilo semelhante, não mais se deter
em enigmas cabalísticos e não se iludir
com as pompas cerimoniais que algumas situações
oferecem, tudo isso foi deixado para trás, por
mérito único do Caminho trilhado. Bendito
seja o Caminho!
E
naquele momento me ocorreu a lembrança de
alguns outros ocultistas conhecidos meus, que se encontravam
tontamente envolvidos e embaraçados com as pompas
de certas posições hierárquicas
dentro de algumas ordens. Qualquer um sabe que o excesso
de adorno exterior talvez seja o principal obstáculo
ao bom desenvolvimento espiritual de alguém.
Não pude deixar de evitar uma boa gargalhada
quando o vaidoso pequeno pavão do quintal do
meu vizinho soltou um apavorado grito noturno; talvez
um pequeno animal notívago o tivesse pegado
de jeito. Ora, um brinde às boas coincidências
da vida!
Recuperando-me do riso inesperado, passei a respirar
de modo profundo e pausado. Um pouco de pranayama cairia
muito bem, ainda por cima quando combinado com o cachimbo
e o conhaque.
As
lembranças continuavam, e, com elas, um
renovado sentimento de busca também chegava. É verdade,
se algo tinha permanecido em meu íntimo, esse
algo era o próprio desejo de continuar aprendendo
como se aquele instante fosse o primeiro passo da minha
jornada.
E ele de fato era meu primeiro passo.
Olhei
para o céu com um renovado sentimento
de euforia.
Curiosamente,
a névoa, que antes era intensa,
agora começava a se dissipar, permitindo que
a lua se mostrasse perfeita, intensamente brilhante.
A
neblina! Minha intuição alertou-me:
não seria ela mais um véu? Sim, um véu
estava sendo removido, e se tal fora feito por minha
vontade ou não, isso não era importante
naquela hora. Apenas sabia que a madrugada me oferecia
aquilo, e eu estava sinceramente grato.
A
névoa que encobria a Rainha da Noite fora
totalmente dissipada, assim como também, naquele
exato instante, fora removido o Véu da Lua,
do Fundamento, o meu próximo degrau, a Esfera
de Yesod.
Um
novo Grau havia sido alcançado. Um outro
início. Essa minha nova jornada começava
ali.
Outro passo
a ser dado e conquistado, mas, certamente, outro degrau
a ser superado.
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