Iniciação
e Busca do Saber
por Carlos Raposo
www.artemagicka.com
"Forget all
your Sorrows Don't live in the Past
And Look to the Future Cos life goes too Fast
You know!"
(Hard Road, Black Sabbath)
Os motivos que lançam quem quer que seja à iniciação
são vários: sabedoria, encanto ou poder
pessoal, ajuda ao próximo, evolução
da humanidade ou ainda um fascínio qualquer,
curiosidade, falta de outra coisa que fazer, ociosidade,
etc. Enfim, tais motivos sempre oscilarão entre
extremos que vão desde os mais nobres anseios
até as mais vis e inconfessáveis perversões,
habitantes dos mundos de Hades de nosso ser.
Parece existir, contudo, uma característica
romântica bem peculiar e comum àqueles
que anseiam por iniciação: todos procuram
e almejam um conhecimento especial, um misterioso
saber, algo capaz de transcender as possibilidades
normais do ser humano. Diga-se ainda mais, pois além
de seu inefável atributo transcendental, esse
precioso conhecimento teria a capacidade de libertar
quem o possuir dos diversos grilhões aos quais
está atada a infeliz humanidade. Depois de
adquirido tal conhecimento, o Iniciado, agora um
espiritualizado Adepto, estaria livre para agir conforme
sua desvelada natureza. Fazendo uso do bom e velho
clichê, ele então usaria seus novos
poderes conforme bem entendesse, seja para o bem
seja para o mal.
Segundo o Evangelho de Tomás, Jesus, se referindo
ao Saber, diz "Que aquele que busca não
deverá deixar de buscar até que ele
o encontre; quando o encontrar, se emocionará e
assim contemplará e reinará sobre o
universo". O padre espanhol Molinos, sobre o
mesmo tema, também nos inspira, dizendo que "o
espírito da sabedoria, enchendo os homens
com doçura, governa-os com coragem e ilumina
com excelência os que se submetem a sua direção".
Por tal saber, uma soma enorme de homens e mulheres
dedicam a própria vida, em uma busca às
vezes alucinada, a qual tem produzido um considerável
número de loucos e santos, tem causado tristeza
e alegria, ira e paz, derrotas e glórias;
mas sempre, em todos os casos, tem exigido muito
sacrifício, tanto pessoal quanto coletivo.
Pelas páginas da história, são
fartos os relatos de martírio, são
numerosos os nomes citados como exemplos de total
resignação em favor de um saber qualquer.
Mesmo quando o preço a ser pago pelo saber é a
própria vida, ainda assim, isso não
seria razão suficiente para inibir a demanda
empreendida pelo buscador convicto. Como já afirmado,
o mesmo ocorre em nível de coletividade, quando
dificuldades imensas são superadas, apenas
para se obter ou manter um conhecimento adquirido.
Não será vão aqui citar o exemplo
dado por uma comunidade inteira de Judeus residentes
em algum ponto do sul da Arábia. Após
a criação do Estado de Israel, essa
comunidade, emigrando à terra considerada
Santa pela religião hebréia, foi obrigada
a se desfazer de praticamente todos os seus bens.
Porém, presente entre as raras posses as quais
seus membros se recusam a abandonar, estava o "Livro
do Esplendor", o Zohar, obra cuja origem remonta
ao século XIII, mas cujo estudo é mantido
vivo até os nossos dias, por certa classe
de cabalistas.
Enfim, o conhecimento e a tradição,
o saber propriamente dito, serão sempre tidos
como preciosos e reverenciados até o final
dos tempos. A busca pelo saber, consequentemente, é da
natureza humana. Não constituirá, portanto,
um erro querer ou aspirar conhecimentos e dons espirituais,
sejam estes quais forem. Pelo contrário, se
de fato houvesse um número cada vez maior
de pessoas verdadeiramente interessadas nos reais
dons espirituais, muito estaria diferente neste mundo
em que vivemos.
Onde houver a possibilidade de aprendizado, lá estará a
humana criatura, experimentando, analisando e estudando,
tentando assimilar tudo que for capaz. Mesmo se o
Saber, continuando lá, em algum misterioso
e reservado lugar, mesmo que ele esteja no mais recôndito
esconderijo do espaço infinito, nos desafiando,
tal como o insólito monólito de Kubrik,
o homem nunca cessará a sua demanda.
Várias são as vias e modos de conhecimento.
Umas das estradas mais freqüentadas ultimamente
tem sido aquela taxada pelo incômodo rótulo "ocultismo".
Essa é uma das formas que o homem encontrou
para, livre de influências outras senão
aquela advinda do próprio saber, preservar
e transmitir o conhecimento; sendo o próprio
ocultismo o resultado da elaboração
de uma série de ensinamentos, os quais, quando
reunidos e formando um todo, passam a assumir a denominação
genérica de Ciência Arcana ou Filosofia
Oculta. Uma série de ritos sistemáticos,
as assim chamadas Iniciações, também
foram associados à Ciência Arcana, sempre
no intuito supremo de transmitir o saber. Deste modo,
qualquer ser humano de boa vontade, que se faça
digno e preparado para absorver seu simbolismo, poderia
ter acesso aos mais profundos níveis de conhecimento
ali oferecidos.
Mas parece que muitos não encontram no glamour
oferecido pelas ditas Ciências Arcanas as respostas à necessidade
de crescimento espiritual. Isso acontece com freqüência,
pois normalmente espera-se da nobre Ciência
um retorno imediato, uma resposta conclusiva e definitiva às
questões básicas do viver e sobre o
saber.
Por tal, esta Ciência costuma trazer em si
mesma um curioso paradoxo: o caminho do fácil
difícil. Ela é o caminho fácil,
pois, provavelmente, não exista assunto mais
debatido e em moda do que os temas esotéricos:
quem quer que queira uma bola de cristal, pronto,
manuais e mais manuais o ajudarão a ver tudo
na tal bolinha; quem quer que queira um arzinho de
iniciação, pronto, dúzias e
mais dúzias de ordens rosacruzes e templárias
de plantão virão afoitas oferecer seus
serviços. Enfim, continuamente haverá oferta
para qualquer tipo de curioso satisfazer parte de
seus anseios místicos.
Também a Ciência Arcana é uma
vereda difícil, pois, quem nela se aprofunda
sabe que a senda do conhecimento é um caminho
que logo se desvela bem mais custoso do que se supunha
numa primeira análise. E como nos sugere Blake "as
preces não lavram o campo e os louvores não
os ceifam". Por tal, o caminho do sábio
se revelará, cedo ou tarde, muito árduo.
A aventura iniciática de todos parece ter
etapas bem definidas, quase sempre bem particulares
a cada um dos buscadores.
Se abrimos a porta de nossa casa a qualquer um que
por ventura ali esteja passando, poderemos receber
tanto um impostor quanto um nobre, tanto um farsante
quanto um Iniciado. E assim se dá com o Ocultismo,
pois na ânsia de vermos resolvidas nossas contundentes
questões transcendentais, abrimos a porta
de nosso ser a qualquer chance que nos pareça
pelo menos razoável.
Normalmente o tino daquele que está movido
por tal ânsia, se vê direcionado a alguma
das chamadas Escolas de Mistério, porquanto
nelas é comum se encontrar os mais diversos
tipos de apelos clamando por sua atenção,
todos prometendo a conquista dos mais sublimes predicados
espirituais.
Deste modo, o então iniciando, com o mesmo
primaveril entusiasmo de um calouro, livre de qualquer
tipo de conceitos e juízos místicos
predefinidos, começa sua jornada na trilha
dos mistérios. Infelizmente, algumas vezes,
a euforia que o move é tão sinceramente
desprovida de sentido crítico, que uma das
principais virtude humanas, o bom-senso, quando em
conflito com a ânsia de aprender, vai sendo
aos poucos esquecida, dando paulatinamente lugar
a toda sorte de incoerências doutrinárias
de fundo místico-religioso.
É que o que normalmente acontece em grande parte
de tais organizações raramente escapa
do ilusório. Além disso, toda sorte de
bordões do tipo "aqui não se doutrina,
só se orienta", é usado tanto para
condicionar os participantes a um ambiente de suposta
harmonia e lúdica veracidade, quanto para camuflar
as reais forças que movem e dão sustento
a grande maioria das ditas ordens esotéricas.
Como conseqüência, à força
da insistente doutrina que lhe é empurrada,
invariavelmente um emaranhado de argumentos falhos
e lugares comuns, todos devidamente mergulhados em
uma variação sem fim de silogismos
pueris, acaba por penetrar pela mente do candidato,
corrompendo sua própria vontade e comprometendo
suas ambições pessoais, doutrinando-o
e "orientando-o", conduzindo-o a um condicionamento
servil, apenas para o engrandecimento, em si, da
organização. Tudo isso causa por fim,
no antigo candidato, uma tosca combinação
de apatia e dependência, gerando uma submissão
de dar dó.
Vale ressaltar que isso, mesmo sendo uma razoável
exposição do que normalmente acontece, é uma
generalização, não correspondendo,
portanto, ao que se passa em absolutamente todas
as organizações existentes. Porém,
o mais importante em todos os casos é ter
consciência que independente do meio no qual
o homem estiver, existe algo que, quando presente
em seu espírito, dificilmente permitirá qualquer
tipo de condicionamento servil, impedindo que o Ser
seja maculado pela influência do ambiente.
Esse algo é a atitude do candidato. E isso,
repetindo, será o mais importante.
Para tal, necessário é, tão
somente, que o buscador tenha total e plena confiança
em si próprio, nunca esperando, de forma alguma,
como nos aconselha Maquiavel, pensar poder se recobrar
de uma queda apenas porque acredita que encontrará quem
o levante, ou mesmo o carregue.
Caso o candidato esteja de fato ciente daquilo almejado
e caso todo o peso do simbolismo venha lhe tocar,
mesmo de modo leve e sutil, ele então saberá que
nada poderá conduzi-lo, que a ninguém
caberá a tarefa de orientá-lo em definitivo,
pois todos estarão juntos no mesmo anseio
primevo de busca pelo saber.
Este estado de consciência provocará,
então, uma atitude especial, fazendo com que
o buscador assuma um definitivo compromisso consigo
mesmo (melhor seria dizer um inquestionável
estado perceptivo) entendendo assim as diversas situações
e fatos, pertinentes aos vários ambientes
nos quais ele estiver, como se fosse um simples e
perene acordo entre ele e a sua divindade pessoal.
Em certos Círculos, tal ajuste, ou acordo, é conhecido
pela denominação "A Última
das Juras".
Intuirá também que o saber não é algo
definido e estático, mas sim uma variedade
infinita de impressões que, ao mesmo tempo,
moldam e se adaptam ao Sábio. Ele saberá que
seu ser estará em eterno movimento (uma verdadeira
metamorfose ambulante, como bem o diria nosso querido
Raul Seixas), aprendendo pelo experimento, pela observação
e estudo, e ensinando tão somente pelo exemplo
vivo no qual o buscador se tornou.
Deste modo ele fará as vias do simbólico
lótus, o qual nascendo na vasa e permanecendo
com suas raízes imersas em lodo e lama, ali
mesmo encontra o alimento necessário a lhe
permitir o rompimento das estruturas, das superfícies
para, a partir daí, unicamente seguindo os
desígnios de sua própria natureza,
buscar a luz do sol.
Devemos, desta forma, estar bem atentos e conscientes
do que representa para nossa vida o meio no qual
nascemos e crescemos. Assim poderemos identificar
e avaliar as informações por nós
recebidas, e delas extrair tudo o que de fato precisamos
para nosso avanço espiritual.
O meio no qual está inscrito o buscador, contudo,
e apesar dessas restrições, tem papel
deveras importante em sua formação.
Em sociedades como a de nosso querido e maltratado
país, por exemplo, quando praticamente toda
a população se vê as voltas com
a ignóbil e estéril falta de opção, "tupi-or-not-tupi", "ser
ou ser" cordeiro, fica muito difícil
crer, ou até mesmo imaginar, que o bom e sofrido
cidadão de nível mediano, devido unicamente
a retração de inteligência que
lhe é brutalmente imposta, tenha sequer a
capacidade de avaliar as parcas informações
que recebe. Uma lástima.
Um outro agravante muito sério é erguido
pelos fatores econômicos. Salvo raríssimas
exceções (e, felizmente, elas existem),
quase tudo que gira pelo universo da humanidade está necessariamente
de acordo com o que é ditado pelos óbvios
padrões de nosso mundo, cada vez mais neurótico-capitalista.
De modo que se algo não dá lucro (e
quanto maior melhor), não serve para existir.
Será difícil supor que o misticismo
- seja ele de qual tipo for, tenha ele o apelo que
tiver - escape destas duras diretrizes.
E quando se observa, mesmo de relance, as estruturas
de algumas entidades "filantrópicas" -
no caso do Brasil, entidades "filantropicais" -,
nota-se os claros indícios do oportunismo
mascarado pelo grande álibi do chavão "caridade" ou "ajuda" ao
próximo. Outra lástima bem desagradável.
Todavia, mesmo com toda a dificuldade existente,
a necessidade premente de se saber falará mais
alto no coração humano e no espírito
do sincero buscador. E, por fim, como já dito,
o sentimento determinativo de seu sucesso na senda
estará na atitude e no apreço que ele
tiver em relação ao que considera Sagrado.
A busca do saber sempre será uma forte parte
ativa da essência humana. E provavelmente todos
terão, de uma forma ou de outra, chance de
adquirir a tão almejada sapiência.
Porém, também seja dito, se é certo
que a muitos será dada a chance de conquistá-la,
igualmente é certo que nem tantos suportarão
as conseqüências impostas pelo estado "saber".
Em que se pese toda a diversidade de conceitos e
opiniões a respeito de como acontece a busca
do saber, além das realizações
e desilusões inerente à própria
demanda do conhecimento, lembro de uma pequena e
curiosa lenda atribuída àqueles fantásticos
gigantes mitológicos de um olho só,
os Ciclopes; a qual retrata, com notável precisão,
a cábula que pode estar vinculada ao saber.
Segundo essa lenda, conta-se que os Ciclopes eram
seres alegres e felizes. Nessa época, eles
possuíam os dois olhos, como todos os outros
seres da região em que viviam.
Movidos por sua natureza investigativa, diz-se que
os Ciclopes saíram em sua busca do conhecimento
e da sabedoria maior. Assim, durante a jornada repleta
de acontecimentos e aventuras, após muito
procurarem, eles se depararam com um Grande Mestre,
o Senhor dos Mundos Obscuros.
Os Ciclopes, então, contaram ao Mestre os
seus anseios e perguntaram se este poderia, de alguma
forma, ajudá-los. O Mestre, agindo de acordo
com sua sinistra natureza, declarou possuir tal saber,
o conhecimento dos conhecimentos, o maior dos segredos
entre todos os segredos. "E este segredo será de
vós. Tudo porém tem um preço!",
disse com majestade o temível Grande Senhor
dos Mundos Obscuros.
Entusiasmados diante da real possibilidade de conseguirem
o tão almejado segredo, os Ciclopes, se declararam
dispostos a pagar o preço necessário,
fosse qual fosse seu valor, para finalmente terem
a posse do cobiçado conhecimento. Nenhum esforço
seria medido por eles para pagar o preço devido.
O Senhor dos Mundos Obscuros, então, propôs
trocar o grande segredo por um olho dos Ciclopes.
A barganha foi feita e o logro obtido.
Os Ciclopes, assim, com um só olho, e de posse
do Supremo Conhecimento, logo retornariam da longa
jornada, à região de origem deles.
Os outros habitantes daquela região logo notaram
o diferente aspecto dos gigantes. Porém, o
que mais se fazia perceber naquelas colossais criaturas
não eram os novos e estranhos traços
das suas faces, mas sim a terrível mudança
do estado de espírito deles. Onde antes estavam
a alegria e a felicidade, agora habitam a tristeza
e a sisudez.
Os demais moradores da região dos Ciclopes,
acostumados com a habitual cortesia daqueles soberbos
seres, não entendiam os motivos da drástica
mudança de atitude. "O que terá acontecido
a eles?" perguntavam atônitos entre si.
Até que um dos gigantes, contou como fora
a jornada em busca do conhecimento. Contou a respeito
do anseio de sua raça pelo saber e pelo Sumo
Conhecimento. Falou como eles decidiram partir na
demanda de suas altas aspirações e
também como ocorreu o fatídico encontro
com o Grande Mestre. Narrou como se sucedeu a barganha
que lhes fora proposto pelo terrível Mestre
dos Mundos Abissais e, finalmente, sobre o tão
desejado Saber, o Conhecimento que afinal lhes fora
entregue: "o maior dos segredos, entre todos
os segredos", disse de forma tristonha e melancólica
o imenso Ciclope.
Foi quando alguém, dentre aqueles que escutavam
o gigante, perguntou: "mas porque agora, ó colossal
criatura, andais triste como o crepúsculo,
porque agora os dias e as noites não têm
mais importância para ti e por qual motivo
a própria vida já não exerce
encanto sobre todos da tua nobre raça, e justamente
agora que vós possuís tão precioso
saber?"
Ao que respondeu o Ciclope que o Saber que lhes fora
conferido, era muito especial mas também deveras
cruel; o maior dos segredos, entre todos os segredos;
tão terrível quanto o seu Guardião,
o Mestre dos Mundos Obscuros. Este era o Único
Saber, e este consistia apenas do conhecimento preciso
e completo de como e quando ocorreria a própria
morte. A nobre raça dos Ciclopes agora estava
condenada a nascer já perfeitamente ciente
de como e quando se daria a própria morte.
Desta feita, nada mais importava para aquelas grandes
criaturas da região. Nada mais tinha importância.
Por isso a tristeza e a melancolia agora seriam suas únicas
e eternas companheiras.
O fardo era demais. E se fosse permitido a eles apenas
mais um desejo, todos, sem exceção,
escolheriam algo muito simples: ignorância...
Mas é claro que essa lenda apenas expõe
um lado da questão. O triste lado da questão, é verdade.
E devemos estar cientes disso. Contudo também é verdade
que, embora dando o que pensar, essa lenda nunca
inibirá (amém!) a ambição
da humanidade pelo saber.
E mais, muito antes que qualquer conhecimento ou
objetivo final seja alcançado, devemos estar
atentos ao presente, a jornada, que é a própria
vida. Pois que o grande aprendizado está,
em si, no caminho a ser percorrido, no passo a passo
e não apenas naquilo a ser, por fim, alcançado.
Se em todo o processo invocamos anjos ou demônios,
se elevamos as mãos aos céu e oramos
ao Deus Pai ou se, ajoelhados, entoamos aos gritos
as "Litanias de Satã", de Baudelaire,
ao final, isso até parecerá pouco ter
importado. Assim, tristezas e alegrias devem se comungadas
com o mesmo respeito e gratidão. Também
valerá cultivar um respeito, não muito
exagerado, é certo, por tudo no caminho. Não
exagerar na seriedade é uma boa dica que vem
de Hemingway, pois, segundo ele, as sementes do que
seremos já nascem conosco, porém sempre
pareceu que os que não levam a vida totalmente
a sério têm as sementes cobertas por
um solo generoso e bem adubado. E essa também é a
nossa opinião.
E ainda no que diz respeito as tristezas que estão
presentes na senda, não se ocupar em demasia
com elas é um bem que se aprende, afinal,
a vida é rápida e o futuro sempre existirá com
possibilidades promissoras. E, como nos ensina Borges,
ditosos são aqueles que sabem que o sofrimento
não é uma coroa de glória.
Também vale ressaltar que o espírito
de busca deverá continuamente estar alimentado
por aquele fogo primaveril de quem inicia a jornada.
De outra feita, correremos o sério risco de
nos perder nas estéreis conjecturas do labirinto
de nossa própria mente, sucumbindo, lentamente,
ao entorpecimento do entusiasmo que é causado,
duplamente, pelo peso de certas conquistas e de algumas
descobertas.
Se todos nós que queremos, com todas nossas
forças, desvendar os mistérios de nossa
própria existência, estamos ou não
apenas revivendo histórias já contadas
e recontadas por outros tantos, isso na verdade nunca
será de relevância. A busca pelo saber,
por si só, o saber pelo saber, isto basta
a muitos.
Tão pouco também terá valor
a tola suposição de ser o saber maior
uma lúdica e vã quimera, pois o Homem
continua sendo o maior de todos os seres fantásticos.
"Ai de mim! da Filosofia,
Medicina, jurisprudência,
E, mísero eu! da teologia,
O Estudo fiz, com máxima insistência.
Pobre e simplório aqui estou,
E sábio como antes sou!"
Assim grita o Fausto de Goethe, quando inicia sua
jornada em busca do saber maior. E mesmo sendo ele,
um grande Doutor, entre tantos outros doutores, com
toda a sua humana sapiência, partiu em busca
dos mistérios da existência. Sejamos
ou não pequenos Faustos em agonia, nós
nunca escaparemos desta dupla aventura: de impor à vida
os desígnios de nossas vontades e, em contrapartida,
de receber as suas injunções.
Outrossim, foi deixado de propósito para este
final as eternamente válidas e simples palavras
de Pessoa, nos dizendo que "tudo vale a pena,
se a alma não é pequena".
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