Os
Mistérios de Baphomet
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Nota
Editorial: Este Artigo foi publicado como matéria
de capa da Revista Sexto Sentido nº 45,
de outubro de 2003, da Mythos Editora. Posteriormente,
em maio de 2006, ele foi reeditado em Sexto Sentido
Especial,
"Os Templários". Para esta versão
on-line de "Os Mistérios de Baphomet",
foram mantidos o texto original completo,
bem como as referências bibliográficas
das obras consultadas pelo autor. Clique na imagem
da Revista para ir para a página da Revista
Sexto Sentido, no Site da Mythos Editora. |
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por Carlos
Raposo
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A esfinge grega
tem cabeça e seios de mulher,
asas de pássaro e corpo e pés de leão.
Outros lhe atribuem corpo de cachorro e cauda de serpente.
Conta-se que devastava o país de Tebas, propondo enigmas aos homens
e devorando os que não sabiam resolvê-los.
(Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários)
Uma
das imagens de mais forte presença no universo ocultista de nossa época,
por vezes erroneamente interpretada como uma rebuscada
representação do diabo católico, recebe
o nome de Baphomet. Todavia, apesar de muito ter sido especulado
sobre o lendário ídolo dos Templários,
pouca informação confiável existe
a respeito desta enigmática figura. Daí vêm
as inevitáveis questões: o que de fato esta
imagem significa e qual a sua origem? Além disso,
o que ela hoje representa dentro das Ciências Arcanas?
Há algum culto atualmente celebrado cujos fundamentos
estejam calcados neste Mistério?
Este
pequeno exame sobre os Mistérios de Baphomet tem como principal objetivo
fornecer algumas orientações iniciais ao tema,
permitindo assim que cada Estudante possa encontrar subsídios
para ir, aos poucos, formando sua própria opinião,
de modo a melhor poder avaliar o que normalmente é encontrado
ou divulgado nos círculos iniciáticos atuais.
Em
relação
a seus aspectos históricos, mesmo não sendo
possível estabelecer com precisão uma inequívoca
e incontestável ascendência do termo, é sabido
que talvez a origem do que veio a se tornar um mito esteja
enraizada no princípio do século XIV da Era
Cristã.
Em
1307 uma série
de acusações daria início a cruel perseguição
imposta pelo Papa Clemente V (Arcebispo de Bordéus,
Beltrão de Got) e pelo Rei de França Felipe
IV, mais conhecido como Felipe o Belo, contra a Ordem dos
Cavaleiros do Templo, também chamada de Ordem dos
Pobres Cavaleiros de Cristo, ou, simplesmente, Templários.
O processo inquisitorial movido contra os Templários
foi encerrado em 12 de setembro de 1314, quando da execução
do Grão Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay,
juntamente com outros dois nobres Cavaleiros, todos queimados
pelas chamas da Inquisição.
No
longo rol de acusações
estavam: a negação de Cristo, recusa de sacramentos,
quebra de sigilo dos Capítulos e enriquecimento, apostasia,
além de práticas obscenas e sodomia.(1) O
conjunto das acusações montaria um quadro claro
do que foi denominado de desvirtuação dos princípios
do cristianismo, os quais teriam sido substituídos
por uma heterodoxia doutrinária de procedência
oriental,(2) sobremodo
islâmica.
No
entanto, dentre as inúmeras acusações movidas contra os
Templários, uma ganharia especial notoriedade, pois
indicava adoração a um tipo de ídolo,
algo diabólico, entendido como um símbolo místico
utilizado pelos acusados em seus supostos nefastos rituais.
Na época das acusações, costumava-se
dizer que em cerimônias secretas, os Templários
veneravam um desconhecido demônio, que aparecia sob
a forma de um gato, um crânio ou uma cabeça
com três rostos.(3) Todavia,
examinando a acusação movida por Clemente V,
encontraremos originalmente(4) o
seguinte: item quod ipsi per singulas provincias habeant
idola; videlicet capita quorum aliqua habebant tres facies,
et alia unum; et aliqua cranuim humanum habebant.(5) Na
acusação, embora seja feita menção
a adoração de uma “cabeça”,
um “crânio”, ou de um “ídolo
com três faces”, nada é mencionado, especificamente,
sobre a denominação Baphomet.
De
onde, então,
teria surgido o termo?
Não se sabe com
precisão onde surgiu o termo Baphomet. Uma das possíveis
origens, entretanto, é atribuída a pesquisa
do arqueólogo austríaco Barão Joseph
Von Hammer-Pürgstall,(6) um
não simpatizante do ideal Templário, que em
1816 escrevera um tratado sobre os alegados mistérios
dos Templários e de Baphomet,(7) sugerindo
que a expressão proviria da união de dois vocábulos
gregos, “Baphe” e “Metis”, significando “Batismo
de Sabedoria”. A partir desta conjectura, Von Hammer
especula a respeito da possibilidade da existência
de Rituais de Iniciação, onde haveria a admissão,
seja aos mistérios seja aos segredos cultuados pela
Ordem do Templo.
Dada
a aversão
de Von Hammer em relação aos Templários,
os estudiosos do tema aceitam com reservas sua tese, embora
a mencionem como referência original possível
ao termo Baphomet. A tese de Von Hammer, todavia, ainda que
muito criticada por alguns, encontra boa receptividade por
parte de outros ocultistas, principalmente entre os teósofos
de Madame Blavatsky, dado seu entendimento apontar para a
Grécia Antiga como a plausível origem de Baphomet.
Relacionando-o com o deus grego Pã, Blavatsky vê em
Baphomet um andrógino, com um enorme aparato de ensinamentos
de ordem hermética e filosófica.(8)
Também
da pesquisa de Von Hammer(9) vêm
algumas ilustrações, as quais, provavelmente,
cerca de quatro décadas mais tarde, serviram de base
para Eliphas Levi conceber sua própria ilustração
de Baphomet, da qual logo trataremos. Segundo Von Hammer,(10) de
acordo com suas descobertas, os ídolos Templários
se tratavam de degenerações de ídolos
gnósticos valentinianos, sendo que, de todos eles,
o mais imponente formava uma estranha figura de um homem
velho e barbudo, de solene aspecto faraônico. Um traço
bem marcante de todas as figuras era a forte presença
de caracteres de hermafroditismo ou androginia, traços
que, ainda de acordo com a descrição de Von
Hammer, endossariam cabalmente as acusações
de perversão movidas pelo clero contra os Templários.
Desta
descrição
aparece outra referência que muito diz sobre o mistério
que cerca o nome Baphomet: ela aponta para a imagem de um “homem
velho”, o qual seria adorado pelos Templários.
Este “homem velho” possuía as mesmas características
de Priapus, aquele criado “antes que tudo existisse”.
Contudo, a mesma imagem, por vezes aparecendo com armas cruzadas
sobre o peito, sugere proximidade com o Deus egípcio
Osíris, havendo até quem afirme ser Osíris
o verdadeiro Baphomet dos Templários.(11)
Seguindo
a mesma lógica
e pensamento de que o vocábulo Baphomet teria vindo
da Grécia Antiga, também existe a hipótese
de que sua procedência esteja na conjunção
das palavras “Baphe” e “Metros”,
algo como “Batismo da Mãe”.(12) Por
sua vez, a partir deste raciocínio, surge uma outra
proposição poucas vezes mencionada nos estudos
sobre Baphomet, a qual aponta ser “Baphe” e “Metros” uma
corruptela de Behemot,(13) um
fantástico ser bíblico(14) de
origens hebréias. Esta teoria é importante,
visto Behemot ser citado (e por vezes traduzido) como
uma grande fêmea de Hipopótamo que habitava
as águas
do Rio Nilo, sendo uma das representações da “Grande
Mãe”, esposa do Deus Seth.(15) Na
concepção egípcia dos Deuses, a fêmea
do Hipopótamo faz uma espécie de contra-parte
do Crocodilo (Typhon), da mesma forma pela qual existem
os bíblicos Behemot e Leviathan.(16)
De acordo com o
pesquisador Raspe,(17) outra
definição que ganha importância, principalmente
na abordagem dos cultos que atualmente são rendidos
a Baphomet, mostra o suposto ídolo dos Templários
como uma fórmula oriunda das doutrinas Gnósticas
de Basilides. Neste sentido as palavras anteriormente apresentadas,
que originaram o termo Baphomet, seriam “Baphe” e “Metios”.
Assim, teríamos a expressão “Tintura
de Sabedoria”, ou o já apresentado “Batismo
de Sabedoria”, como o significado de Baphomet.
Blavatsky ainda
relaciona Baphomet com Azazel,(18) o
bode expiatório do deserto, de acordo com a Bíblia
Cristã,(19) cujo
sentido original – segundo a célebre ocultista
russa – foi deploravelmente deturpado pelos tradutores
das Sagradas Escrituras. Blavatsky ainda explica que
Azazel vem da união das palavras Azaz e El, cujo significado
assume a forma de um interessante “Deus da Vitória”.
Não obstante a esta definição, em seus
preceitos, Blavatsky vai além, quando equipara Baphomet – O
Bode Andrógino de Mendes - ao puro Akasha, a Primeira
Matéria da Obra Magna.(20)
Em
meio a tantas referências,
não podemos deixar de mencionar a curiosa tese que
diz ser o vocábulo Baphomet nada mais do que uma simples
corruptela francesa para o nome Mahomet.(21) Tal
conjectura, sustentada por Mackey,(22) vem
em encontro com a suposição de que os Templários
estariam sob influência das doutrinas islâmicas,
conseqüência de suas freqüentes incursões
no oriente por ocasião das Santas Cruzadas. No entanto,
como bem lembrado por Mackenzie,(23) esta
suspeita entraria em franco conflito com a premissa
Templária
de combate a fé Islâmica. Há de se ressaltar
ainda que a religião islâmica não adota
a prática de venerar ídolos, o que representaria
uma contradição, considerando que Baphomet
fosse de fato um ídolo adorado pelos Templários.
Considerando
que a palavra Baphomet possua raízes árabes, especula-se
também que ela seja a corruptela de Abufihamat (ou
ainda Bufihimat, como pronunciado na Espanha), expressão
moura para “Pai do Entendimento” ou “Cabeça
do Conhecimento”.(24) Se
nos lembrarmos das acusações movidas contra
os Templários, de que eles adoravam uma “Cabeça”,
veremos nesta hipótese algo plausível de ser
aceito.
Apesar
de todas as alusões
até aqui feitas, a figura de Baphomet que se tornou
mais famosa, servindo de principal referência para
os ocultistas atuais, é mesmo aquela cunhada no século
XIX pelo Abade Alfonse Louis Constant, mais conhecido pelo
nome Eliphas Levi Zahed, ou simplesmente Eliphas Levi. De
acordo com a descrição do Abade, publicada
pela primeira vez em 1854, a imagem de Baphomet, o Bode de
Mendes ou ainda o Bode do Sabbath, é feita do seguinte
modo:(25)
|
"Figura
panteística e mágica do absoluto.
O facho colocado entre os dois chifres representa
a inteligência equilibrante do ternário;
a cabeça de bode, cabeça sintética,
que reúne alguns caracteres do cão,
do touro e do burro, representa a responsabilidade
só da matéria e a expiação,
nos corpos, dos pecados corporais. As mãos
são humanas para mostrar a santidade do
trabalho; fazem o sinal do esoterismo em cima
e em baixo, para recomendar o mistério
aos iniciados e mostram dois crescentes lunares,
um branco que está em cima, o outro preto
que está em baixo, para explicar as relações
do bem e do mal, da misericórdia e da
justiça. A parte baixa do corpo está coberta,
imagem dos mistérios da geração
universal, expressa somente pelo símbolo
do caduceu. O ventre do bode é escamado
e deve ser colorido em verde; o semicírculo
que está em cima deve ser azul; as pernas,
que sobem até o peito devem ser de diversas
cores. O bode tem peito de mulher e, assim só traz
da humanidade os sinais da maternidade e do trabalho,
isto é, os sinais redentores. Na sua fronte
e em baixo do facho, vemos o signo do microcosmo
ou pentagrama de ponta para cima, símbolo
da inteligência humana, que colocado assim,
em baixo do facho, faz da chama deste uma imagem
da revelação divina. Este panteus
deve ter por assento um cubo, e para estrado
quer uma bola só, quer uma bola e um escabelo
triangular”. |
Devido
a eficiência
de sua ideação, Levi propositalmente faz com
que se acredite que exatamente esta forma de Baphomet era
a presente na celebração dos Antigos Mistérios.
Apesar de Levi ter conseguido conceber uma arrebatadora e
sintética efígie, recheando-a de múltiplos
significados, não há como aceitá-la
como sendo o “verdadeiro” Baphomet, senão
um fruto da fértil imaginação religiosa
do Abade. Indo um pouco além, diríamos até que
esta idéia foi, entre outras influências, livremente
inspirada pela curiosa representação do Diabo,
esculpida alguns anos antes, em 1842 no pórtico da
Igreja de Saint-Merri, em Paris.(26)
De
qualquer modo, pelo texto de Levi, fica claro que para
conceber a “figura
exata deste imperador da noite”, para usar as palavras
do próprio Abade,(27) ele
recebeu forte influência de uma série de informações
advindas das mais diversas culturas. Assim, seja sua fonte
os desenhos e ídolos descobertos por Von Hammer, seja
o Egito ou a Grécia, ou as culturas hebréia,
cristã ou gnóstica e até mesmo de Zoroastro,
Levi, de cada uma delas foi extraindo elementos para conceber
o seu extraordinário Bode do Sabbath.
Contudo,
apesar das variadas fontes alegadas, valerá ao estudante mais atento examinar,
com cuidado redobrado, a gravura denominada “Hermafrodita
de Khunrath”,(28) citada
como fonte pelo honesto Abade, visto ela guardar notáveis
semelhanças com a concepção do Bode
de Mendes, de Levi.
A
figura emblemática
do Bode de Mendes de Eliphas Levi foi uma das primeiras,
senão a primeira, que associou o bode ao ídolo
Templário. É muito provável, dada a
condição de sacerdote católico do Abade
Alfonse Louis Constatnt, que a imagem Bíblica do sacrifício
do Bode Expiatório tenha lhe servido de inspiração.
O bode no Egito, entretanto, não possuía um
significado religioso grande, exceto por este culto
sacrificial, promovido na cidade de Mendes.(29) Daí a
denominação escolhida por Levi, o Bode de Mendes.
Porém, é significativo
mencionar que o bode, do mesmo modo como atribuído
ao carneiro, sempre foi símbolo de fertilidade, de
libido e força vital. Contudo, enquanto o carneiro
assume características solares, o bode se relaciona às
lunares.(30) Em
outras palavras, é costume relacionar carneiros, ou
cordeiros, como símbolos de aspectos considerados “positivos” das
divindades, enquanto que aos bodes estariam reservados os “negativos”.
Assim, se naquele convencionou-se associar uma imagem de
pureza, vida e santidade, neste são associados luxúria,
sacrifício e perversão. Em ambos os casos,
contudo, é importante salientar que tanto o carneiro
quanto o bode são claros símbolos de divindades
solares, sendo que no primeiro tem-se a exaltação
da divindade, enquanto que no segundo a expiação
e morte do deus.
Numa
variação
deste símbolo, o carneiro é substituído
por outro bode, passando-se assim a dois bodes utilizados
ritualisticamente. A primeira menção deste
culto ocorre no Levítico, exatamente no mencionado
Culto do Bode Expiatório.(31) Nesta
ocasião, durante as festividades, o Sacerdote recebia
dois bodes e de acordo com o resultado de uma escolha aleatória
um deles seria imolado enquanto o outro era posto em liberdade.
Não deixa de ser interessante se lembrarmos do Rito
de escolha entre Jesus e Barrabás, onde um foi sacrificado
e o outro posto em liberdade.
O
mais importante para o momento, entretanto, é lembrar que tais considerações
trazem, em si mesmas, um eterno jogo de contrários,
apresentados ora na forma de um aspecto luminoso, ora na
forma de um feitio sombrio. O dualismo é a característica
mais evidente da gravura de Eliphas Levi. Nela encontramos
propriedades masculinas e femininas, diurnas e noturnas,
sugerindo o equilíbrio da criação através
do retorno a androginia primordial. A mística sufi,
inclusive, uma herança islâmica supostamente
absorvida pelos Templários, menciona que apenas existirá a
salvação se for superada a ilusão da
dualidade deste mundo de aparências e erros, pelo retorno à unicidade
original.(32)
As
inscrições
SOLVE e COAGULA da imagem de Eliphas Levi são outro
claro exemplo do enfoque dualista de seu Baphomet. Originalmente
presentes nos antebraços do “Hermafrodita de
Khunrath”, estes dois preceitos misteriosos mostram
que o Andrógino domina completamente o mundo elementar,
agindo sobre a natureza, de modo inteiramente onipotente.(33) As
inscrições são dois pólos que
marcam o clico solar de Vida, composta de Geração,
Nascimento e Morte, para depois haver uma nova Geração
que dará continuidade ao interminável ciclo
da Vida. A fórmula Solve et Coagula, todavia, não
se resume apenas na vida material. Podemos entender aqui
que o espírito pouco evoluído, ou primário,
encontrará os meios pelos quais possa ser transformado
em espírito evoluído, superior. A esta propriedade
de transformação, ou melhor, ao elemento que
permite esta transformação, os Mestres deram
o nome de Mercúrio Filosofal, ou Água dos Sábios,(34) a
mesma Tintura de Sabedoria, da qual falava o gnóstico
Basilides ainda no século II.
A
imagem do Baphomet de Eliphas Levi, enfim, é a representação
emblemática deste Mercúrio Filosofal ou do
Andrógino Primordial.
Também de Eliphas
Levi vem outra curiosa explanação sobre a origem
do nome Baphomet, que se tornou voga nos dias de hoje.
Segundo o erudito Abade, esta palavra era a forma cifrada
de se dizer TemOHPAB,(35) uma
espécie de acróstico inverso de Baphomet, que
formaria a sentença iniciática Templi Omnium
Hominum Pacis ABbas.(36) A
explicação do acróstico, contudo, não
traz maiores esclarecimentos ao termo Baphomet, senão
a já bem conhecida menção a Unidade
Primeira.
Outra
técnica cabalística
de cifrar mensagens (chamada Athbsh) sugere que
o verdadeiro significado de algumas palavras apenas
aparece caso seja escrito, a partir da palavra original,
um outro termo. Conforme esta regra, a primeira letra do
alfabeto hebraico (Aleph) na verdade equivaleria a última (Tau),
a segunda letra (Beth) corresponderia a penúltima
(Shin), a terceira letra (Gimel) a antepenúltima (Resh)
e assim por diante. A palavra BaPhOMeT, neste caso escrita
com as letras hebraicas Beth, Pe, Vav, Mem e Tau aparece,
após ter sido aplicada esta técnica, como Shin,
Vav, Pe, Yod, Aleph, correspondendo então a palavra
SOPHIA, Sabedoria em grego.
Seguindo
com a teoria que aponta Baphomet como o Hermafrodita, pode
ser feito um extraordinário paralelo entre esta efígie e
a citação bíblica “Deus criou
o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus,
criou o homem e a mulher”.(37) Examinando
o texto em latim encontraremos: ad imaginem suam Dei
creavit illum, masculum et feminam creavit eo, ou seja “à sua
imagem Deus o criou, o criou macho e fêmea“.
Assim, conforme mostram as Sagradas Escrituras, Deus criou
um Adão que era, ao mesmo tempo, macho e fêmea,
um Andrógino.(38) Adão,
portanto, o primeiro ser da natureza, foi dotado com as duas
naturezas do andrógino. Baphomet então surge
como um ícone tardio para o homem primordial, Adão.
As
alusões sobre
a expressão Baphomet, ora apresentadas, são
de extrema valia para os estudantes do simbolismo mágico
e iniciático. Não obstante o volume de ponderações
feitas já ser considerável, uma nova e recente
forma de abordagem destes Mistérios vem ganhando terreno
no estudo da Tradição, principalmente nos aspectos
relacionados ao que hoje se convencionou chamar de
neo-templarismo e neo-gnosticismo.
No
século XX, o
controvertido ocultista inglês Aleister Crowley, desenvolveu
um culto e uma religião que têm como um de seus
principais fundamentos exatamente o alegado ídolo
templário, segundo sua própria e peculiar concepção
de Baphomet. O entendimento de Crowley por certo lançará mais
matéria à reflexão sobre este discutível
tema, bem como ajudará a avaliar o modo polêmico
de abordagem deste mistério, modo este típico
de uma crescente vertente de ocultistas contemporâneos.
Ao
longo das obras de Crowley, são fartas as referências a Baphomet,
por ele chamado de “Mistério dos Mistérios”,
no cânone central de sua religião, cânone
este composto na forma de um missal denominado Liber
XV – A Missa Gnóstica.(39) Tal
era sua identificação com Baphomet, que este
nome foi adotado como um de seus mais importantes pseudônimos,
ou Motes Mágicos.
O
assunto é tão
relevante que nos Rituais de Iniciação da Ordo
Templi Orientis, uma das Ordens lideradas por Crowley, praticamente
todas as consagrações são feitas em
nome de Baphomet, não importando se os consagrados
estejam conscientes ou não a respeito do sentido de
tal ato e muito menos de suas implicações futuras.
Tamanha é a proeminência do conceito implícito
ao termo que no VI Grau da referida Ordem, a título
de ilustração, numa clara referência
a suas supostas raízes orientais, a palavra Baphomet é declarada
como sendo aquela que comporta os Oito Pilares (as oito letras
que formam a palavra) que sustentam o Céu dos Céus,
a Abóbada do Templo Sagrado dos Mistérios,
no qual está o Trono do Rei Salomão.(40)
Ainda
em sua Missa Gnóstica,
Crowley identifica Baphomet com um símbolo chamado “Leão-Serpente”.(41) O
Leão-Serpente, assim como Baphomet, é a representação
do andrógino ou hermafrodita. Mais especificamente,
ele é um composto que possui em si mesmo o equilíbrio
das forças masculinas e femininas transmutados num
só elemento. O Leão-Serpente, na verdade, é uma
forma cifrada de mencionar a concepção humana,
a união dos princípios masculinos (Leão)
com femininos (Serpente), ou do espermatozóide com
o óvulo, formando o zigoto. Há, seguindo com
os preceitos de Crowley, diversos modos de mencionar esta
dualidade: Sol e Lua, Fogo e Água, Ponto e o Círculo,
Baqueta e Taça, Sacerdote e Sacerdotisa, Pênis
e Vagina, além de várias outras duplas de eternos
polares.
Originalmente,
o símbolo
representado pelo Leão-Serpente, consta em alguns
dos mais antigos documentos gnósticos, os quais remontam
a começos do século II d.C. Apresentado sob
a forma de uma figura arcôntica com cabeça de
leão e corpo de serpente, o Leontocéfalo era
a própria imagem do Demiurgo do Mundo, sendo a versão
gnóstica para o Jeová mosaico.(42) Crowley,
ao se utilizar deste mesmo simbolismo, pretendia assim resgatar
os cultos de um cristianismo hoje considerado primitivo.
Crowley
e seus adeptos, entretanto, não se detêm apenas em demonstrar
o Mistério de uma forma puramente alegórica.
A “Luz da Gnose”, como é chamada, é celebrada
de modo literal. Assim, o ponto máximo da encenação
de seu missal consiste na celebração do Supremo
Mistério, ou seja, durante a realização
das Missas Gnósticas ocorre a comunhão, por
parte de todos os partícipes da Cerimônia, das
hóstias, também chamadas de Hóstias
dos Céus, ou Bolos de Luz, preparadas com sêmen
e fluido menstrual.(43) De
acordo com Crowley, Baphomet, sob o nome Leão-Serpente,
surge deste composto, da Matéria Primeva, oriunda
da Grande Obra, ou seja, do ato sexual entre Sacerdote e
Sacerdotisa. Através dos alegados poderes mágicos
dos Operantes do Rito da Grande Obra, a Matéria
Primeva é transmutada em “Elixir”,
ou Amrita.(44) A
Grande Obra, contudo, através das propriedades mágicas
da fórmula de Baphomet, ainda teria a capacidade de
transmutar também os Operantes do Rito e não
apenas as substâncias que o compõem.(45)
Baphomet,
assim como concebido por Crowley, é então o Elixir ou Tintura da
Sabedoria, o veículo da Luz da Gnose, a qual compõe
o Mistério Místico Maior, também chamado
segredo central de sua Ordo Templi Orientis. Crowley também
considerava Baphomet como o supremo Mistério Mágico
dos Templários, segredo este que estaria concentrado
nos graus superiores de sua Ordem. Da mesma forma, ele clamava
que este era o mesmo mistério oculto aos graus superiores
da Maçonaria.(46)
Crowley
e seus discípulos
se consideram herdeiros deste conhecimento, o qual, segundo
eles, foi transmitido de geração em geração,
desde tempos remotos até eles mesmos, seus sucessores,
através dos Santos Gnósticos. Curioso constatar é que,
dentre os inúmeros Santos relacionados por Crowley
em sua Missa Gnóstica,(47) estejam
presentes os nomes Valentin e Basilides, os mesmos
gnósticos
citados, cujas doutrinas supostamente deram origem ao termo
Baphomet. Inclusive, no Credo de sua religião, recitado
nesta mesma Cerimônia, há referência oculta
a Baphomet ou Leão-Serpente, na forma do mencionado “Batismo
de Sabedoria”, ato responsável pelo Milagre
da Encarnação(48) (a
reprodução humana).
Crowley
também
usa uma forma particular de grafia para Baphomet, forma esta
que segundo o seu relato, lhe fora revelada em visões
obtidas durante a realização de determinados
trabalhos mágicos.(49) Assim,
esta palavra aparece curiosamente grafada como BAFOMIThR.(50) Com
isso, Crowley - externamente - sugere que o termo Baphomet
seja para ele equivalente ao que Pedro representou
para Cristo,(51) ou
seja, analogamente, sobre esta “pedra” fundamental,
Baphomet, Crowley edificou a sua Igreja.(52) Internamente,
contudo, em um dos Graus Superiores de sua Ordem, dado
ao caráter supostamente Templário, de acordo com
a interpretação de Crowley deste tipo de mistério,
em seus diários a palavra BAFOMIThR(53) por
vezes aparecia para indicar Ritos de Magia Sexual onde
havia prática de sodomia.(54)
As
concepções
de Crowley, entretanto, não param por aí. Ao
que tudo indica, tal é a amplitude de valores presentes
em seus ensinamentos relacionados a Baphomet, que se tem
nítida impressão de que ele valeu-se de todas
as atribuições cabíveis a esta imagem,
para dali avocar alguma mensagem, apropriada tanto a difusão
quanto a justificação de sua religião.
Apesar
de muito ter sido dito concernente a questão Baphomet, apenas uma única
certeza aparece de modo irrefutável: Os Mistérios
de Baphomet ainda seguirão, dando a oportunidade para
que cada um de seus Estudantes penetre num rico e fantástico
universo de signos, símbolos e enigmas a serem desvelados.
O
próprio enigma
da Esfinge Egípcia nos desafia e ameaça, prometendo
maravilhas conquanto nos indaga sobre sua misteriosa natureza.
Talvez o que de melhor tenhamos a fazer neste momento, após
tanto considerar sobre esta outra enigmática Esfinge,
Baphomet, é seguir o sábio exemplo de um dos
maiores Mestres Gnósticos, o próprio Basilides,
conhecido como o Mestre do Silêncio,(55) e
quedar-nos em sossego.
Abrindo
espaço
ao Silêncio, damos vez à reflexão. Refletindo,
confiamos que a verdadeira Fraternidade, aquela que
se reúne
na Igreja Invisível do Espírito Santo, continuará sempre
a providenciar nosso sustento espiritual, sem os excessos
tão comuns a falsa religião, mas com a tranqüilidade
da Verdadeira Sabedoria, que garantirá justiça
e perfeição para todos os seus Reais Adeptos.
---/////---
NOTAS: 01)
Demurger, Alain. Os Cavaleiros de Cristo, Jorge Zahar Editor
(Rio de Janeiro, 2002); p. 191.
02) Figueiredo de Lima, Adelino. Os Templários,
Bradil (Rio de Janeiro, 1972); p. 41.
03) Read, Piers Paul. Os Templários,
Imago Editora (Rio de Janeiro, 2001); p. 286.
04) Citada por Mackey, Albert Gallatin. Enciclopedia
de la Francmasonería, Editorial Grijalbo (México, 1981).
Vol. I, p. 205.
05) também em todas as províncias
têm ídolos ou cabeças representativas, algumas possuindo
três faces, outras uma e algumas com crânio humano".
06) Citado por Mackenzie, Kenneth. The
Royal Masonic Cyclopedia, The Aquarian Press (England, 1987), p. 67.
07) Von Hammer-Pürgstall, Joseph. Mysterium
Baphometis Revelatum, (1816). Ver também Hammer-Purgstall, Joseph
von, Die Geschichte der Assassinen (Stuttgart-Tubingen, 1818); tradução
Inglesa: The History of the Assassins, tr. O.C. Wood (London, 1835).
08) Blavatsky, Helena P. Glossário
Teosófico, Editora Ground (São Paulo, edição
sem data).
09) Citado por King, Charles William. The
Gnostics and Their Remains, Wizards Bookshelf (Minneapolis, 1973), p.
128.
10) Citado por Angebert, Jean-Michel. Hitler
et la tradicion Cathare, Editions Robert Laffont (Paris, 1971); cap. III.
11) King, C. W. - Op. Cit., p. 235.
12) King, C. W. - Op. Cit., p. 406.
13) King, C. W. - Op. Cit., p. 406.
14) Jó, 40:10-15.
15) Graves, Robert; Patai, Raphael. Los
Mitos Hebreos, Alianza Editorial (Madri, 1988); p. 46.
16) Graves, Robert; Patai, Raphael. Op.
Cit., p. 43.
17) Citado por King, C. W. - Op. Cit. ,
p. 407.
18) Blavatsky, Helena P. Isis Sin Velo,
Ediciones Novedades de Libros (México, 1954); tomo III, p. 413.
19) Levítico, 16:5-10.
20) Blavatsky, Helena P. A Doutrina Secreta,
Editora Pensamento (São Paulo, 1973); vol I, p. 286.
21) King, C. W. Op. Cit., p. 406.
22) Mackey, A. G. Op Cit., vol I, p. 205.
23) Mackenzie, Kenneth. Op. Cit., p. 67
24) Shah, Idries. Os Sufis, Círculo do
Livro (São Paulo, 1991); p. 252.
25) Levi, Eliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia,
Editora Pensamento (São Paulo, 1963); p, 448.
26) Demurger, Alain. Auge e Caída de los Templários,
Ediciones Martinez Roca, (Barcelona, 1986); p. 261.
27) Levi, Eliphas. Op. Cit., p. 323.
28) Ver análise “O Andrógino de Khunrath”,
presente em: Guaita, Stanislas. No Umbral do Mistério, Ed.
Martins Fontes (São Paulo, 1985); p. 73. Originalmente esta imagem foi
publicada por Heinrich Khunrath, no Amphitheatrum sapientiae aeternae.
(Hamburg: s.n., 1595).
29) Lurker, Manfred. The Gods and Symbols of Ancient
Egypt, Thames and Hudson (London, 1980); p. 55.
30) Chevalier, Jean; Geerbrant, Alain. Dicionário
de Símbolos, José Olympio Editora (Rio de Janeiro, 2000);
p. 134.
31) No já citado Levítico, 16:5-10.
32) Chevalier, Jean; Geerbrant, Alain. Op. Cit.,
p. 52.
33) Guaita, Stanislas. Op. Cit., p 86.
34) Fulcanelli. As Mansões Filosofais,
Edições 70 (Lisboa, 1977); p. 237.
35) Levi, Eliphas. Op. Cit., p. 329.
36) “Pai do Templo, Paz Universal dos Homens”.
37) Gênesis, I:25. Também encontramos referência
a este princípio em Mateus, 19:4 e em Marcos 10:6.
38) Fulcanelli. Op. Cit., p. 182.
39) Crowley, Aleister. Magick, editado por John
Symonds e Kenneth Grant, Samuel Weiser, (Maine,1987); p. 424.
40) King, Francis. The Secrets Rituals of the O.T.O.,
Samuel Weiser (New York, 1973); p. 164.
41) Crowley, Aleister. Op. Cit., p. 424.
42) Gómez de Liaño, I. El Círculo
de Sabedoria, Ediciones Siruela (Madrid, 1998); p. 139.
43) Kenneth, Grant. Hecate´s Fountain,
Skoob Books Publishing (London, 1992); p. 103.
44) King, Francis. Sexuality, Magic & Pervesion,
Feral House (Los Angeles, 2002); p 98.
45) Kenneth, Grant. Beyond the Mauve Zone, Starfire
Publishing (London, 1999); p. 201.
46) Kenneth, Grant. Op. Cit., p. 31.
47) Crowley, Aleister. Op. Cit., p. 430.
48) Crowley, Aleister. Op. Cit., p. 424.
49) Os Trabalhos de Amalantrah, realizados em
1918.
50) Crowley, Aleister. The Magickal Record of the
Beast, editado por John Symonds e Kenneth Grant, Duckworth, (London, 1993);
p. 54.
51) No entendimento de Crowley, “BAFOMIThR”,
de acordo com a Gematria, técnica de atribuir valores as letras, possui
valor igual a 729. Este é o mesmo atribuído a palavra grega “Kephas”,
que significa “pedra”.
52) Mateus, 16:18.
53) Mencionada por Crowley como a “Fórmula
729”.
54) Crowley, Aleister. Op. Cit., p. 179.
55) Salvan, Paule. No Prefácio para Gillabert, Émile. Jésus
et la Gnose, Dervy-Livre (Paris, 1981); p. 17.
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et la tradicion Cathare, Editions Robert Laffont (Paris,
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